Teoria da Pornografia Passiva

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Esse texto foi originalmente publicado no Medium que criei a pouco tempo, mas como é relevante para esse universo do blog, resolvi transportar ele para cá com algumas atualizações.

Algum tempo atrás enquanto escrevia o post sobre o famoso “Caiu na Net, acabei ‘inventando’ o termo Pornografia Passiva. Na verdade acho que inventar não é bem a palavra. Como não lembro de ter visto este termo em outro lugar, resolvi criar a minha própria teoria sobre e explicar ela um pouco melhor.

Quando usei pela primeira vez, me referia principalmente àqueles vídeos que recebemos no WhatsApp sem nem mesmo ter solicitado. Não gosto de generalizar, mas nunca conheci um ser vivo que tenha WhatsApp e nunca tenha recebido nenhum tipo de conteúdo pornográfico através dele.

Receber vídeos desta categoria se tornou algo tão comum que já ouvi as mais diferentes histórias sobre o assunto. Uma vez enquanto bebia com amigos em um bar, entramos no tópico “vídeos que recebemos pelo WhatsApp” e vi o feito mais impressionante de todos: Meu amigo abriu o grupo do futebol (esse são os piores, pode ter certeza) e mostrou o histórico da conversa — “conversa” — eram apenas vídeos, dezenas deles. Após alguns segundos dando scroll no smartphone e passar por cerca de 40 vídeos, ele olhou para nós e falou: “Isso é um cara só que mandou… nos últimos 15 minutos”.

Outro momento, outros amigos, o mesmo tópico. Dessa vez um relato que torna o termo “pornografia passiva” ainda mais real. Este conhecido tinha um grupo no WhatsApp onde, da mesma forma, recebia dezenas de vídeos e fotos de pornografia por dia. Ao se defender dizendo que ele nem baixava mais, de tantos vídeos, ele foi questionado porque não saia do grupo, e aí que a história fica boa:

Eu até tentei, mais de uma vez, mas os caras te colocam de volta no grupo, só de avacalhação. O que eu vou fazer? Amigo Anônimo #1

Pornografia a uma notificação de você

Acredito que algo relevante de ser dito é que o acesso fácil a determinado conteúdo facilita sim o seu consumo. Segundo o site “Family Safe Media”, 12% de todos os websites do mundo contém material pornográfico (será que por causa desse texto o Midiatismo vai entrar nessa estatística também?). Mas pensar em entrar em um site de pornografia, abrir o seu computador / smartphone, buscar por material e consumi-lo é algo bem mais trabalhoso do que ver a notificação do seu celular e clicar para ver o vídeo que mandaram.

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Quando Donald Cressey fala do “Triângulo da Fraude, sobre os três pontos que levam alguém a cometer uma fraude, consigo transportá-lo para esse mesmo universo facilmente.

Se para Donald uma fraude segue três pontos fundamentais: Pressão de conseguir algo; oportunidade de cometer a fraude; racionalização para não achar que está errado, para a pornografia passiva eu diria que há algo bem semelhante: oportunidade de acessar material facilmente; pressão de ser aceito por aquele grupo; racionalização de que não é algo errado.

– Mas e o vídeo daquela menina?

– Ah, todo mundo estava passando, eu só passei para um amigo meu.

Por que o WhatsApp e não outros meios?

Essa na verdade é uma boa pergunta. Sobre isso, eu tenho uma outra teoria. Existe uma grande diferença entre acessar um site de pornografia e receber um vídeo em seu smartphone. Nessa questão eu diria que abrir o navegador e acessar www.redtube.com (NSFW, não preciso nem avisar, né?) seria um exemplo de pornografia ativa, enquanto abrir o WhatsApp e receber 10 vídeos de 255Kb seria a pornografia passiva.

Outras ferramentas de mensagens rápidas como o Facebook Messenger não funcionam da mesma forma que o WhatsApp. Talvez porque nem todos habilitem o chat do Facebook em seus celulares ou porque não querem comprometer os seus perfis pessoais a esse tipo de conteúdo. Mesmo em outros serviços, como o Viber, não é comum ver muitos comentários de problemas com pornografia sendo compartilhada neles — apesar de ter certeza que existe, da mesma forma.

Por que a pornografia passiva é perigosa?

Acho que poderia existir um livro apenas sobre os problemas da pornografia, na verdade eu acho que existe e provavelmente foi escrito por um católico ortodoxo.

Tenho mais uma história sobre pornografia no WhatsApp, relatada por uma amiga minha, mãe e casada — mas poderia ter sido contada por dezenas de outras pessoas que já passaram pelo mesmo.

Segundo ela, um dia a sua filha de 4 anos mexia no celular do pai quando abria o aplicativo de fotos. Confesso que não lembro se ela viu algo ou quase viu algo, mas haviam dezenas de fotos proibidas para menores de 18 anos. E, obviamente, totalmente inadequadas para uma criança de 4 anos. O fato levou a uma discussão sobre o assunto e a desculpa? “O pessoal manda, eu nem tinha visto esses vídeos ainda. O celular baixa sozinho”. Quer algo mais passivo que isso? Não consigo imaginar.

As pessoas mandam vídeos em grupos que você nem sabe porque faz parte em uma quantidade que você nem sabia que era possível. Para o receptor do material, ele apenas alega que já estava assim quando ele viu.

Existe três frases curtas que levarão sua vida adiante: ‘Não diga que fui eu!’, ‘Oh, boa idéia, chefe!’ e ‘Já estava assim quando cheguei’. Homer Simpson

A pornografia passiva também se torna muito perigosa quando lembramos daqueles vídeos que não deveriam existir, mas, infelizmente, existem. Pornografia infantil e o “pornô da vingança” tem aparecido nestas ferramentas também. Sabe qual é a pior parte? Você não tem como reportar um vídeo ou foto recebido. Pelo menos não no WhatsApp.

Enquanto pesquisava para o texto sobre “Cair na Net” percebi que o WhatsApp não tem nenhum link para você reportar uma imagem/vídeo ilegal. No FAQ do aplicativo, existem dezenas de questões, nenhuma é referente a denunciar perfil ou algo semelhante.

A pornografia passiva está consumindo GBs de espaço em celulares alheios e você não tem nem como reportar se ver algo errado. Onde vamos parar?

PUBLICADO POR

Dennis Altermann

Fundador-Editor aqui no blog Midiatismo, trabalhando com marketing digital na DuPont Pioneer do Brasil. Entusiasta e estudioso nas áreas de comunicação, cultura, comportamento e tecnologias digitais.

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