Marketing Digital no Brasil. Entrevista com Conrado Adolpho

Esta semana vamos trazer diversas entrevistas com alguns dos principais nomes do Marketing Digital e Comunicação Digital no Brasil. Hoje estamos trazendo  Conrado Adolpho.

Conrado Adolpho é um dos principais nomes do marketing digital no país. Palestrante, professor, diretor de agência e autor do livro 8Ps do Marketing Digital. É referência no uso do marketing digital por pequenas e médias empresas e por isso o convidei a uma rápida entrevista sobre este mercado.

Como você vê a importância da Classe C e D em relação ao Marketing Digital?

Até então, a internet no Brasil estava restrita ao que chamo de “tchurminha”, as nossas pequenas classes A e B. O Brasil é muito mais do que isso. Em um país de mais em que praticamente 180 milhões de habitantes estão inseridos nas classe C, D e E. Estávamos no nicho das classes A e B, agora estamos de fato entrando no mercado de verdade.

Em uma recente pesquisa de Andre Torreta, vimos que 72% dos brasileiros são analfabetos funcionais – sabem ler mas não tem total compreensão do que estão lendo. As empresas que antes faziam sites para as nossas classes mais favorecidas, agora vão ter que pensar nessa massa de consumidores ávidos por novidades, porém, com suas dificuldades naturais com tecnologia e conteúdo. A entrada massificada das classes C e D na internet vai modificar o comportamento das empresas, agências web e toda a indústria baseada em ações interativas.

O marketing digital vai ter que incorporar estratégias para absorver essa demanda que ainda não é estudada. As empresas que primeiro entenderem como conquistar essas classes C e D serão provavelmente as líderes de mercado em pouco tempo.

Muitas pequenas e médias empresas dizem que ainda é difícil investir em mídias sociais e meios digitais. Você acredita que o Marketing Digital está muito distante das PME?

O problema não são as empresas, são os profissionais contratados. As pequenas e médias empresas são entes, são elementos intangíveis. Não se conversa com uma pequena empresa, não se dá a mão a uma pequena empresa. O rótulo PME é uma abstração. O que é difícil para essas empresas é contratar profissionais, esses, sim, bem tangíveis, que saiba agir em um ambiente interativo.

Um profissional que entenda, não só as dificuldades de uma PME – estrutura enxuta, departamento de marketing raquítico, carga tributária percentualmente muito alta em relação ao faturamento etc -, mas também entender de como transformar suas estratégias de negócios em ações eficientes e rentáveis na internet.

O marketing digital está muito longe dos profissionais que servem a essas empresas, não propriamente das empresas em si.

Qual você acredita ser a formação que deixa o profissional mais preparado para enfrentar o mercado de marketing digital?

Ao contrário do profissional de publicidade e propaganda do século passado que se concentrava muitas vezes em ser um bom criativo ou dominar meia dúzia de ferramentas, tanto de produção de design gráfico ou planejamento de mídia, o profissional de marketing do novo século deve dominar muito mais competências.

Têm que ser bom no que já deveria ser antes, porém, hoje deve também ter uma boa noção de como lidar com grande quantidade de dados, lidar com grandes quantidades de pessoas que batem à porta da empresa a todo tempo – por meio de tweets, posts em blogs ou em comentários no Facebook – deve entender de tecnologia, nem que seja o básico, mas as novas tecnologias da informação e da comunicação vieram para ficar. O novo profissional de marketing deve ser um profissional de negócios e de tecnologia ao mesmo tempo. Deve dominar as exatas e as humanas. E, é lógico, com o ensino fraco que nós temos no Brasil, não é de se admirar que os atuais formandos não estejam preparados para isso.

Some-se a isso alguns fatores agravantes: as faculdades que ainda não estão preparadas para prover tal ensino multidisciplinar. Esse problema vem da base – os professores, com o baixo salário que ganham, não conseguem dedicar tempo para estudar as mudanças que ocorrem no seu mercado por debaixo de seus narizes (que os seus alunos experimentam todo dia). Os professores acabam por não conseguir acompanhar o ritmo dos seus alunos.
O segundo fator agravante é o “boicote” velado por parte das agências em promover a internet, uma vez que não há o polêmico BV, dá muito mais trabalho e é completamente mensurável, o que aumenta em muito a responsabilidade da agência perante ao cliente para manter a sua conta.

Esses dois fatores combinados não ajudam o mercado. As agências também têm dificuldades de contratação de bons profissionais, uma vez que as faculdades não estão preparadas para formá-los, como já vimos. Como uma agência que não dispõe de bons profissionais vai por em risco uma conta milionária por conta de uma parte digital que pode não dar certo?

É um dilema que as grandes agências passam atualmente. Não acho que seja de fácil resolução a não ser que passemos a formar bons profissionais nas faculdades ou fora dela. Trabalhar o meio digital não é mais uma opção para as agências, é uma exigência dos clientes. Caso esse problema estrutural não seja logo resolvido, vamos ter muitas mudanças nos players de mercado, inflação de salários de profissionais digitais (como já estamos tendo) e outras mudanças que vão mudar o cenário do mercado como um todo – não só o mercado digital, mas todo o mercado.

Um adendo, não existe mercado digital – existe mercado. Uma mudança no chamado “digital” é no final das contas uma mudança no mercado e ponto.

Qual é a sua visão sobre as agências que trabalham com marketing digital aqui no Brasil

Falado na pergunta anterior, mas é preciso mais para chegarmos a fazer diferença. O mercado criado pelo ambiente digital pode ser ainda maior do que o mercado tradicional, mas vai dar bem mais trabalho para atuar nele e muito trabalho para fazer a migração cultural.

Qual sua aposta para o futuro do marketing digital no Brasil

Existe algo que está acima do “marketing digital”, que é a “economia digital”. Falo muito que não existe “marketing digital” assim como não existe “mercado digital”, mas vamos considerar tais expressões apenas para deixar a comunicação mais didática.

A economia digital pode ir muito bem. Ela pode mudar a economia do país assim como a India mudou sua economia por conta dessa nova maneira de fazer negócios e enxergar o mundo. As mudanças que ela traz em sua essência como o encurtamento das distâncias, a mensuração, a diminuição da assimetria de informação e tantas outras características podem fazer com que nosso país passe para uma outra etapa econômica.

A internet pode ajudar em muito as micro e pequenas empresas e é nisso que temos que apostar e mirar. O marketing digital é apenas uma consequência do que a economia digital pode fazer pelo país. A própria economia mudou muito ao redor do mundo devido à internet. O que era “ciência para gerenciar a escassez” mudou ao passo que em um mundo baseado em informação em que ela não é mais escassa, mas muito abundante.

É necessário novos arranjos mercadológicos que absorvam essas mudanças. Uma vez que entendemos a nova economia e passamos a trabalhar com ela, o marketing é pura consequência. Marketing, não publicidade e propaganda, mas o marketing, mesmo – a sua essência – é na sua base estratégia. E estratégia tem total relação com mercado, com jogadas mirando um objetivo no campo que é lidar com a massa de pessoas que decidem se uma empresa vai vencer o jogo ou não. Entenda economia, entenda os conceitos por trás das mudanças que vemos atualmente e saberá fazer marketing.

Acho que para o Brasil crescer na economia digital precisamos formar melhores profissionais que tenham não só a criatividade e a vontade, que o brasileiro tem de sobra, mas também a técnica. A teoria. Não acredito que as universidades vão conseguir suprir esse papel nessa geração de alunos. Quando os atuais alunos se tornarem professores, a universidade será completamente diferente do que é hoje. Mas isso demorará muito. Como acelerar o processo? Multiplicando-se o que poucos professores hoje estão fazendo ensinando economia digital na sua essência, porém, não mais para 30 alunos por vez em uma sala, mas em escala. Por isso acredito, prego e faço o modelo de ensino EAD (educação à distância).

Se formarmos em escala mais profissionais de ponta, que pensem em uma nova lógica de mercado, que passem a liderar nesse novo ambiente interativo ao invés de serem liderados por antigos chefes – que ainda atuam em um mundo que já não existe mais -, mudaremos a economia do país e, então, o futuro do Brasil no marketing digital estará assegurado.

Espaço livre. Quer deixar alguma mensagem para os leitores do Midiatismo?

Obrigado por terem chegado até aqui nessa entrevista 🙂

PUBLICADO POR

Dennis Altermann

Fundador-Editor aqui no blog Midiatismo, trabalhando com marketing digital na DuPont Pioneer do Brasil. Entusiasta e estudioso nas áreas de comunicação, cultura, comportamento e tecnologias digitais.

Novidades e atualizações, direto em seu e-mail