Comunicação e Mídias Sociais. Entrevista com Rene de Paula Jr.

Esta semana vamos trazer diversas entrevistas com alguns dos principais nomes do Marketing Digital e Comunicação Digital no Brasil. Hoje estamos trazendo Rene de Paula. Confira também outras entrevistas:

Rene de Paula (@renedepaula) já trabalhou na Yahoo, Microsoft, Almap/BBDO, Agência Click e outros lugares. Frequentemente está em palestras e evento relacionados a mídias sociais e comunicação digital.

Sei que você já passou por grandes empresas como Microsoft, Yahoo e agora está na Locaweb. Onde você acha que as grandes empresas mais erram ao usar a internet?

Dizer que uma empresa erra ao usar a internet pressupõe que haja uma maneira correta e perfeita de se usar a internet, e isso não é um bom ponto de partida. A presunção de que o digital tenha certos e errados é bastante comum e parte normalmente de quem acha que sabe qual é o uso correto. E eu pergunto: o que é o uso correto da internet? Existe uma cartilha universal que todos deveriam seguir? Eu duvido. A Apple é um sucesso retumbante e sua estratégia é impecável em termos de PR, UX, Design Industrial, manufatura, etc, mas não é de maneira alguma um case de uso de crowdsourcing ou social media (pra citar alguns recursos internéticos). Idem pra IBM. Ibidem para Google. O que eu acharia mais maduro e mais útil é questionar se grandes empresas estão errando na sua estratégia geral, ou se a internet está alinhada com sua estratégia geral. Se não levarmos em conta esse quadro mais amplo, não adianta saber se a empresa é uma early-adopter trendsetter modernosa nisso ou naquilo. Aliás… muita empresa disfarça sua total falta de estratégia e inovação ao bancar a moderninha ostentando alguma moda digital que é completamente acessória e desconectada da sua estratégia, mas que passa pro público a idéia de que estão num caminho correto.

Recentemente tive a oportunidade de assistir uma palestra sua onde você comentou ser contra o uso dos termos “Geração Y, Z, etc”. Gostaria de saber se você poderia falar um pouco sobre.

A questão é simples: eu vivo no Brasil, não nos EUA. Meu avô não lutou na 2ª Guerra, meu pai não lutou no Vietnã, eu não fui pro Iraque… Eu nasci e cresci durante uma ditadura militar e vivo hoje num país onde temos um milagre acontecendo: a ascensão da classe C, responsável por metade do que se consome por aqui. Essa classe C é ainda menos X, Y ou Z do que eu ou você, e é um pecado capital ignorar esse fenômeno tão bacana. Empresas sérias e profissionais sérios estão focados nessa geração BR, e não em pseudo-tendências contrabandeadas da gringolândia.

Muitas empresas tem pecado na transparência dentro das mídias sociais. Mas até onde as empresas precisam ser transparentes dentro das mídias sociais?

Ética e transparência não são uma questão só de mídias sociais. Transparência e ética é algo que deve estar presente em todos os canais de uma empresa. A questão que muitas vezes se esquece é como dar conta da expectativa dos consumidores de maneira sustentável. Quantas pessoas um banco teria que colocar no suporte via twitter pra atender a 15 milhões de clientes? O presidente do país deve gastar quanto tempo respondendo emails de 190 milhões de brasileiros? Crianças acreditam que Papai Noel vai atender a todas as cartinhas do mundo inteiro, mas como o resto das empresas não tem duendes mágicos trabalhando de graça, o desafio é descobrir como ser relevante e confiável e disponível em N canais diferentes (twitter, blog, chat, call center, etc) de maneira sustentável.

Nos EUA e em alguns países da Europa o investimento em publicidade online representa uma porcentagem maior do bolo publicitário. Qual é a sua opinião sobre esta diferença entre mercado nacional e internacional de marketing digital?

O mercado publicitário brasileiro tem uma distorção única no mundo inteiro: veículos oferecem um prêmio extra em dinheiro (o dito BV) quando a agência compra mídia deles. Essa bonificação extra acaba sendo uma parte enorme da receita de uma agência, e elas tendem a colocar mídia onde recebem mais. Com isso as mídias digitais ficam em desvantagem com relação às mídias mais tradicionais como TV e revistas, o que não acontece no resto do mundo. Como essa é uma questão espinhosa por ser muito questionável, normalmente ninguém toca no assunto e aí parece um mistério ou uma burrice que empresas invistam pouco em digital.

Qual sua aposta para o futuro do marketing digital no Brasil?

Tudo o que podia acontecer de bom em digital já está acontecendo: classe C se digitalizando, banda larga se estendendo, custos caindo… Infelizmente nada disso fará muita diferença enquanto estivermos refém de problemas estruturais, como o BV e outras peculiaridades do mundo da mídia. Outra questão estrutural que vai nos amarrar sempre é a educação: estão sobrando vagas pra profissionais de digital mas não há gente competente o suficiente pra preenchê-las.

Espaço livre. Quer deixar alguma mensagem para os leitores do Midiatismo?

O que faz toda a diferença hoje em termos de inovação e sucesso não são só questões digitais. O digital está tão ligado aos negócios que o que mais faz falta hoje é quem entenda… de negócios, e isso infelizmente está em vias de extinção. O profissional que todos procuram é multi-disciplinar, entende de negócios e é capaz de se comunicar com áreas diferentes da empresa, e não é isso o que as escolas estão trazendo para o mercado de trabalho. Não dá mais para ser “especialista em redes sociais” ou coisa parecida, a menos que se queira ficar relegado a uma função tática e inexpressiva.

PUBLICADO POR

Dennis Altermann

Fundador-Editor aqui no blog Midiatismo, trabalhando com marketing digital na DuPont Pioneer do Brasil. Entusiasta e estudioso nas áreas de comunicação, cultura, comportamento e tecnologias digitais.

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