Wikileaks perde apoio da opinião pública e pode ir à lona

O fundador do WikiLeaks, Julian Assange, começou dia (24/10) uma campanha de arrecadação de fundos para manter seu projeto ativo. As arrecadações do site caíram, segundo comunicado enviado à imprensa, 95% desde que Bank of America, VISA, MasterCard, PayPal e Western Union impuseram bloqueio às doações em dezembro de 2010. Segundo ele, o site vem perdendo mais de US$ 620 mil (pouco mais de R$ 1 milhão) por semana desde que divulgou telegramas diplomáticos americanos no final de 2010.

Além dos problemas financeiros, o site e seu fundador estão na berlinda da opinião pública e encrencados com a justiça. O primeiro por incentivar a prática de crime, ao publicar documentos ‘furtados e vazados’ sem nenhum tratamento editorial. Já o segundo, encontra-se em liberdade condicional no Reino Unido, lutando contra uma possível extradição para a Suécia, onde é processado por crimes sexuais.

O WikiLeaks divulga documentos secretos há anos, mas ganhou destaque internacional com três vazamentos. No primeiro, publicou um vídeo confidencial, feito por um helicóptero americano, que parece mostrar um ataque contra dois funcionários da agência de notícias Reuters e outros civis. O segundo tornou públicos 77 mil arquivos de inteligência dos EUA sobre a guerra do Afeganistão. O terceiro divulgou mais 400 mil arquivos expondo ataques, detenções e interrogatórios no Iraque.

A posição de Assange e de seu WikiLeaks tem sido intensamente questionada na arena da opinião pública. São acalorados debates nas redes sociais, sobretudo por manter o site com documentos obtidos de modo pouco transparente, publicá-los sem nenhuma edição e pôr em risco a identidade de suas fontes. O site foi muito criticado por divulgar nomes de agentes secretos da CIA e expô-los perigosamente a riscos de morte.

Julian Assange considera a si mesmo um outsider que publica fatos que precisam ir a público. Durante a 67ª Assembléia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), realizada em Lima, no dia (17/10), Assange assegurou durante videoconferência que é um ativista que luta pelo direito da imprensa de publicar informações. Segundo ele o WikiLeaks é uma organização de ‘imprensa livre’ e que luta pelo direito de publicar e de informar e, nesse sentido, é uma organização ativista, porque luta pelos direitos da imprensa.

Pura falácia, na verdade o WikiLeaks nada mais é do que um banco de dados com milhares de documentos postados sem apuração, edição e enviados por descontentes que usam o anonimato para denúncias. O pior é que todo esse conteúdo informacional é conseguido de maneira ilegal por meio de furtos. O editor adjunto do The Washington Post, Jackson Diehl, presente também à SIP, enfatizou que Assange não é um jornalista e tampouco o WikiLeaks é uma organização jornalística. Segundo Diehl, Assange se chama assim (jornalista) por razões legais, mas é um intermediário que prestou informações valiosas.

O WikiLeaks ao contrário dos veículos de comunicação tradicionais não faz o tratamento editorial do que vai ser publicado e entregue aos leitores. Ele não seleciona e nem interpreta os fatos frente à opinião pública, preceitos básicos para a prática do bom jornalismo. Os dados são simplesmente postados e cabe ao leitor interpretá-los e fazer o seu juízo de valor.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=kbOibFK2ZpU]

Outro ponto não menos importante é a questão ética. Os dados publicados no WikiLeaks não passam por filtros como nas redações dos veículos de comunicação e assim podem colocar em risco a vida de inocentes e assassinar reputações. O jornalista, Eugênio Bucci, no livro “Ética e Imprensa” fala com muita propriedade sobre os malefícios causados quando a imprensa deixa a ética de lado. Ele alerta que o assassinato de reputações é um dos mais graves crimes que o jornalista pode praticar, pois é ferida que nunca cicatriza, lembrando o caso da Escola de Base.

Quem já trabalhou em algum jornal sabe quantas pautas boas e polêmicas foram ao lixo por falta de confiabilidade de dados e das fontes. Isso sim é praticar jornalismo com responsabilidade, ética e competência. Atributos que Julian Assange e o WikiLeaks parecem desconhecer. É necessário também discernimento às assessorias de imprensa, pois os profissionais da comunicação trabalham com inconfidências e segredos dos assessorados e isso caso divulgado de maneira irresponsável e criminosa pode causar danos irreparáveis.

Muitos analistas acreditam que o intenso marketing viral negativo fez a opinião pública virar-se contra o WikiLeaks e isto causou o afastamento institucional representado pelas empresas de pagamento online e pelos grandes jornais como “The Guardian”, “New York Times” e “El País”, que davam suporte à ferramenta analisando, filtrando e publicando toda a documentação disponível. Hoje, o Wikileaks talvez esteja travando a sua batalha mais importante: a luta por sua sobrevivência financeira para não ir à lona. Entretanto se for a nocaute, a ética, a responsabilidade social e a prática do bom jornalismo agradecem.

Observação: A opinião de nossos colaboradores não necessariamente reflete a opinião do blog. Obrigado pela compreensão.

PUBLICADO POR

Marcelo Rebelo

Jornalista, relações públicas e pós-graduado em E-commerce. Prestou consultoria em comunicação social e virtual para o Senado Federal, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Programa Fome Zero, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Secretaria Geral da Presidência da República, Unesco e PNUD.

Novidades e atualizações, direto em seu e-mail