Vender perfis no Twitter para pré-candidatos é a nova moda

Uma matéria bastante curiosa foi destaque em dois importantes jornais de Minas Gerais, na sexta-feira (27/04), e logo ganhou as redes sociais mineiras. Trata-se da venda de perfis no microblog Twitter para pré-candidatos com garantia média de 5 a 100 mil seguidores por conta. Os preços variam de R$ 400 a R$ 2 mil podendo chegar até R$ 12 mil ao incluir uma legião de até 500 mil seguidores.

O comércio de perfis no microblog é oferecido pela empresa Agência de Notícias, localizada no Paraná, de propriedade do empresário Márcio Aurélio Demari Ferreira, segundo matéria do Estado de Minas.  Ele atua nesse mercado virtual há oito anos e possui mais de 150 clientes espalhados por todo o país. A oferta é muito atrativa e garante que o interessado, ao adquirir um perfil pelo preço mais baixo de R$ 400, obtém no ato uma conta com 10 mil seguidores, além da vantagem de conseguir a personalização em 24 horas.

"Quer pagar quanto?"

Como regra básica do bom capitalismo se existe a oferta é por que deve existir demanda para tal prestação de serviço. Por outro lado, para quem tem um mínimo de conhecimento sobre o funcionamento do Twitter sabe que isso é uma tremenda furada, pois o microblog é uma ferramenta extremamente pessoal e muito difícil de engajar seguidores. Segundo os especialistas, os diversos fatores de afinidade, que definem o porquê de se seguir um determinado perfil, são extremamente volúveis e difíceis de serem obtidos.

Devemos ainda levar em conta que essa proposta traz embutida algumas dúvidas: de quem são estes perfis? Como foram conseguidos? De quais localidades fazem parte? Veja bem, de que adianta um pré-candidato do Recife (PE) adquirir uma conta com 90 mil seguidores localizados na região sudeste e quais as garantias de que tais números são verdadeiros. Sem contar a notória habilidade de muitos em fraudar, criar números e dados falsos no meio online, isso pode levar à pessoa a comprar gato por lebre.

O jornalista e pesquisador em mídias digitais, Rodrigo Pires, tem opinião semelhante. Segundo ele, o Twitter é uma ferramenta assimétrica e por isso mesmo muito difícil de engajamento, pois os usuários não precisam de autorização prévia para se tornar amigo ou seguidor. Ele esclarece que no caso da compra de perfis, logicamente que o seguidor vai deletar de seu perfil um assunto que não lhe interessa e pior, o “feitiço” pode virar contra o feiticeiro – ao invés de cativar o seguidor, o mesmo pode fazer propaganda contrária ao pré-candidato.

Ele exemplifica a situação com um imbróglio que envolveu o deputado federal, Jorge Corte Real (PTB/PE), na eleição passada, acusado de comprar um perfil de uma conta no microblog para prática de campanha eleitoral. Ele acabou desmascarado pelos usuários, teve que cancelar a conta e se desculpar com seu eleitorado, conforme nota no Blog do jornalista Jamildo Melo, do Jornal do Comércio.

Além da compra de perfis ser uma questão eticamente condenável, os interessados podem também enfrentar problemas com a Justiça Eleitoral, caso usem dessa prática com vistas às próximas eleições para produzir conteúdo eleitoral. No último dia (15/03), os ministros do Supremo Tribunal Eleitoral em uma decisão – arbitrária e equivocada – entenderam que o Twitter é uma mídia massiva e assim os pré-candidatos estão proibidos de veicular mensagem eleitoral antes do dia 06 de julho, data em que a propaganda é permitida. A decisão foi tema do artigo “Atraso e obscurantismo na decisão do TSE em proibir o uso do Twitter por candidatos”.

Há um ditado popular que diz “quando a esmola é grande o santo desconfia”, isso ilustra bem essa questão. É necessário cautela e desconfiar de propostas milagrosas e um tanto estranhas como o comércio de perfis no Twitter. É preferível ter um punhado de seguidores engajados e comprometidos do que centenas de milhares que não representam nada e pior nem sabemos se existem de verdade. Além do que, isso é antiético com os eleitores, um péssimo marketing político e pode trazer danos irreversíveis para a biografia política dos que se aventurarem em tal seara.

PUBLICADO POR

Marcelo Rebelo

Jornalista, relações públicas e pós-graduado em E-commerce. Prestou consultoria em comunicação social e virtual para o Senado Federal, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Programa Fome Zero, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Secretaria Geral da Presidência da República, Unesco e PNUD.

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