Saber dizer não pode ser ainda mais importante.

Atraídas pelo canto da sereia de sucesso instantâneo, empresas de todo tipo têm aderido em massa ao fascinante e ardiloso mundo virtual. O despreparo, a falta de planejamento e as peculiaridades do digimundo tornam a empreitada muito arriscada. Com isso os que trabalham com comunicação acabam se deparando com um dos mais difíceis desafios da carreira de todo o profissional: dizer ‘não’. No caso –  aos seus superiores – em relação a conseguir dominar o ambiente digital.

A adesão às mídias sociais por modismo tem sido o combustível atiçador de graves problemas e colocado os profissionais de comunicação em situações difíceis e delicadas. Pressionados pelos empregadores, muitos estão tendo que, de uma hora para outra, assumir os desafios de gerir uma complexa rede de comunicação por meio das mídias sociais. O pior é que, em muitos casos, sem a mínima estrutura para isso.

Uma das conclusões mais espantosas de um levantamento sobre mídias sociais nas empresas foi que 35% das organizações afirmaram utilizar as mídias sociais devido à repercussão dada pela imprensa ao assunto. O levantamento nacional feito pela consultoria Deloitte “ ::aqui(“http://www.deloitte.com/view/pt_BR/br/19e510b00f4d8210VgnVCM100000ba42f00aRCRD.htm”,”Mídias Sociais nas Empresas”):: ” no segundo semestre de 2010, com organizações de vários portes, nas cinco regiões do país, apontou que 70% das empresas estão nas mídias sociais (os números hoje devem ser bem maiores).

Outro ponto preocupante da pesquisa foi que o marketing e a divulgação de produtos representam 83% das iniciativas em mídias sociais. Isso significa que as empresas continuam equivocadas ao achar que atuar nas mídias sociais é praticar uma comunicação de mão única. Os especialistas na área não cansam de afirmar que mídias sociais não são somente canais de publicações de mensagens promocionais. A essência para o sucesso delas está na interatividade com o que há de mais importante para sua empresa: as pessoas.

Esses erros aliados a ansiedade e ao despreparo fazem com que muitas empresas acabem se lançando nesse meio sem qualquer tipo de planejamento. O jornalista e editor do Blog Mídia8!, Cleyton Torres, alerta que muito pior do que não estar visível para centenas de milhares de possíveis clientes é estar extremamente exposto a essas centenas de milhares de pessoas de forma errônea e negativa.

Sobre essa situação, ele faz uma analogia engraçada com a história daquele rapaz, não muito popular, que tenta realizar uma festa em sua casa e ninguém vai. Isso apenas reforça como ele é impopular, gerando um desconforto extremamente desnecessário. Cleyton acrescenta que a opção de estar presente ou não nas redes sociais não cabe mais às empresas, pois elas já estão, seja de forma planejada ou na forma de comentários negativos, que clientes insatisfeitos publicam sobre ela nas redes. A grande diferença se dá justamente no modo como ela adentrará no digimundo com planejamento ou amadoristicamente.

Nesse panorama, os assessores de comunicação acabam se vendo numa encruzilhada: aceitar a empreitada, mesmo sem as mínimas condições, arcando sozinho com a responsabilidade, caso a iniciativa fracasse, ou dizer ‘não’ e assumir as conseqüências pela negativa. Quem já sentiu na pele tal situação sabe muito bem que a segunda opção é a mais difícil.

Durante consultoria para uma entidade ligada a um órgão do Governo Federal, em 2008, avaliei que não tínhamos sequer a estrutura para manter um blog. Entretanto, um dos secretários, entusiasta das mídias sociais, mas sem a mínima noção das dificuldades de geri-las, insistia em estar presente no Twitter, participar do Facebook, ter canal no Youtube e produzir um boletim virtual, além de editar um site, já existente, que não atendia aos preceitos básicos para tampouco estar no ar.

Dada a falta de recursos, deveríamos centrar todos os esforços na reformulação e consolidação do site, deixando de lado as outras atividades. Era da opinião que valia mais ter um único canal de comunicação eficiente do que ter vários deficientes. Acabei sendo voto vencido e os resultados no geral foram muito ruins, sobretudo, com o Twitter – uma mídia de dedicação quase exclusiva, dada à sua característica de intensa interatividade.

Os especialistas em recursos humanos explicam que é preciso coragem para falar “não”, especialmente em ambientes corporativos, onde as relações são frágeis e complexas. Segundo o presidente da Arbache Consultoria, Fernando Arbache, dizer “sim” é mais seguro e menos constrangedor, porém há um ônus nisso. Ao dizer sim, é possível que o profissional não entregue o que prometeu, tornando a situação mais desconfortável ainda e, pior do que isto, fazendo com que a pessoa que prometeu e não entregou, passe a não ser mais confiável.

Arbache explica que a cultura de dizer sim é algo inerente ao brasileiro, pois as pessoas entendem um não como uma ação pessoal e não profissional. No mundo corporativo em outros países, dizer não estabelece um laço de confiança maior, pois mostra que a pessoa é séria e responsável. No Brasil julga-se que o não é algo pessoal direcionado ao indivíduo que recebeu a negativa.

Nas situações de pressão, como a que passei, os especialistas ensinam que o não deve ser usado sem parcimônia. Arbache reconhece que a relação de forças entre chefes e funcionários é desigual. Entretanto, o funcionário deve se preservar. Ele ensina que a melhor maneira é ir aos escalões superiores, dando ciência que executará tal demanda, mas deixando claro que a possibilidade de sucesso será baixa. O consultor acrescenta que nesses casos existe a forte probabilidade de demissão. Por outro lado, se a demanda fracassar o funcionário pode ser igualmente demitido. A escolha aí é pessoal, ou seja, correr risco de ser demitido por ser honesto ou por ser incompetente

Fernando Arbache também esclarece que dizer não é algo difícil, porém ao praticar isso, o profissional passa a ser visto de forma mais confiável e todos saberão que aquela negativa tem foco profissional.  Ele explica que o aprendizado é complexo, pois ao iniciar este procedimento, o indivíduo quebrará a expectativa de muitas pessoas, possibilitando que muitos se afastem de quem negou em um primeiro momento. Em um segundo momento as pessoas voltam a se aproximar, pois sabem que o sim daquele profissional é algo real tornando-o confiável.

Por fim, os especialistas afirmam que a melhor maneira de lidar com dirigentes aventureiros e dispostos a  encarar o complicado mundo das mídias sociais sem planejamento e preparo é agir de modo transparente e ter sempre a coragem de dizer “não”.

 

 

PUBLICADO POR

Marcelo Rebelo

Jornalista, relações públicas e pós-graduado em E-commerce. Prestou consultoria em comunicação social e virtual para o Senado Federal, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Programa Fome Zero, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Secretaria Geral da Presidência da República, Unesco e PNUD.

Novidades e atualizações, direto em seu e-mail