Popcorn Time, uma revolução em cartaz

O Popcorn Time é gratuito e tem todos os filmes que estão no cinema

Você já pensou que seria possível assistir aos lançamentos cinematográficos mais recentes, legendados em português, com o clique de um botão? Em questão de segundos, o filme começa a passar na sua tela. Pensou, sim: certamente você utiliza ou conhece alguém que assina um serviço de streaming, especialmente Netflix. Agora imagine que o conteúdo é composto principalmente de filmes que nem saíram das salas de cinema, e que não custa nada por mês.

Nas últimas semanas, o mundo da tecnologia assistiu ao surgimento de um aplicativo que lançou uma onda de choque poderosa na engessada indústria do cinema. O Popcorn Time, como o programa é chamado, foi desenvolvido por um grupo de argentinos e disponibilizado para as três principais plataformas: Linux, Mac e Windows.

Até então, o principal empecilho que impedia boa parte dos usuários a utilizarem serviços de pirataria de filmes e seriados era a dificuldade em se navegar e acessar o conteúdo, com sites repletos de banners maliciosos e todo tipo de armadilha para atrair o usuário desatento. Da mesma forma, o grande benefício de serviços como Netflix era a facilidade com que se tem acesso ao catálogo de filmes e seriados, compreensíveis até mesmo para leigos.

Essencialmente, o Popcorn Time funciona como um cliente de torrent, aproveitando a enorme variedade de arquivos disponíveis nessa rede. Mas as tradicionais velocidades e cotas de transferência dão lugar a comandos simples de play/pause e os longos títulos dos arquivos são substituídos pelos pôsteres dos filmes que estão em cartaz. A grande sacada é que o mecanismo elimina a espera: como são torrents de grande circulação, em geral, a velocidade de download obtida é mais do que suficiente para sustentar o streaming do filme do início ao fim. Enquanto o usuário assiste, ele também faz upload para os demais, engajando-se numa transferência P2P clássica.

Some-se a isso a possibilidade de ativar legendas numa infinidade de línguas com o clique de um botão, e se elimina mais um entrave comum a quem nunca entendeu essa segunda parte do processo, fazendo o usuário passar longe do Legendas.tv ou do Open Subtitles, tradicionais sites de arquivos de legendas.

A história se repete

Seria interessante se fosse apenas isso. Mas você já ouviu essa história antes: ameaçados com alguma nova tecnologia, os grandes conglomerados de mídia logo se armam com advogados e iniciam uma campanha contra o novo meio. O exemplo mais fresco na memória de todos é o caso da indústria fonográfica contra o Napster, serviço de distribuição de música que se popularizou no início da década de 2000 e deu início ao boom do compartilhamento de conteúdo protegido na internet.

Hoje, todos sabem do efeito benéfico, a longo prazo, dessa intromissão da tecnologia no mundo da mídia. Anos depois, o mercado musical mudou profundamente: enquanto que as vendas de discos nunca mais se recuperaram, um novo mercado floresceu na própria plataforma que a contestou em primeiro lugar. Onde reinava absoluta a pirataria, as vendas de música através de distribuição digital são o carro-chefe numa indústria cujo faturamento total chegou a 16,5 bilhões de dólares em 2012. No Brasil, enquanto que as vendas físicas diminuíram 15%, as opções digitais cresceram 23% em 2013.

O Netflix, à esquerda, tem poucos filmes recentes e cobra R$ 16,90 por mês; o Popcorn Time, à direita, possui filmes que estão no cinema e é gratuito

Com o Popcorn Time, não foi diferente. Horas depois do projeto ser lançado, já contava com mais de 20 colaboradores no GitHub, repositório de código-fonte onde estava baseado, e já havia sido traduzido para diversas línguas. O rápido e estrondoso sucesso dessa solução para torrents de filmes, uma das poucas inovações recentes no mundo do compartilhamento de arquivos, foi recebido com frieza pela MPAA, a associação da indústria cinematográfica dos Estados Unidos. A equipe do Popcorn Time ficou sabendo que um processo legal já estava sendo preparado pela entidade.

Por mais que o litígio pudesse render longas audiências e debates nos tribunais, os desenvolvedores se prepararam contra alegações de quebra de direitos autorais, basicamente fazendo com que o Popcorn Time se alimentasse sozinho do conteúdo que estivesse disponível. Se esse conteúdo era pirata e infringia direitos de terceiros, culpa da internet, e não do programa. Tudo foi baseado em APIs, e nada era hospedado pelos responsáveis pelo software.

E então, tão rápido quanto surgiu, o Popcorn Time encontrou seu fim. Não nas mãos da MPAA, mas com a desistência dos argentinos responsáveis pelo projeto.

Uma batalha difícil

Segundo os hermanos, o programa chegou a ser instalado em todos os países do mundo, até mesmo “nos dois que não possuem acesso à internet”. Além disso, o motivo apontado para o abandono do projeto era a magnitude que ele tomou, sendo que os integrantes queriam seguir adiante com suas vidas. Segue o texto:

Nós mostramos que as pessoas irão se arriscar a tomar multas, processos e a quaisquer outras consequências só para poderem assistir de chinelos a um filme recente. Justamente o tipo de experiência que merecem. […] Nosso experimento nos colocou de encontro com intermináveis debates sobre pirataria e direitos autorais, ameaças legais e mecanismos obscuros que nos fazem sentir perigo em fazer o que amamos. E essa não é uma batalha da qual queremos participar. Fundadores do Popcorn Time, explicando o encerramento do projeto

A partir daquele momento, quem tentasse acessar o aplicativo teria seu acesso barrado com uma tela de “carregando” sem fim. No entanto, pouquíssimo tempo depois do anúncio público, a cena torrent já estava em polvorosa com o que aconteceria a seguir: o grupo YIFY, agora conhecido como YTS, um dos mais conhecidos entre os que lançam os filmes na rede, decidiu assumir o comando do projeto. Isso foi possível porque os argentinos disponibilizaram o código-fonte no GitHub. Um dos desenvolvedores do grupo, identificado como Jduncanator, disse ao TorrentFreak que “não estamos piores ao gerenciar esse projeto do que apenas fornecendo os filmes”.

Logo depois que a postagem do TorrentFreak saiu, o grupo YTS tratou de retratar a informação de que estaria assumindo o projeto, e disse que o mesmo seria gerenciado por uma comunidade dedicada, “sem pertencer a ou ser mantido por uma pessoa única ou por uma entidade”. Independentemente de quem controla o aplicativo, a verdade é que o Popcorn Time – e até algumas imitações – permaneceu em pleno funcionamento.

Na fronteira da inovação

Agora que ficou mais fácil entrar no mundo da pirataria, Hollywood precisa, mais do que nunca, sofrer mudanças mais radicais no modelo de distribuição de seus filmes. Muitas vezes, isso não implica na abolição do modelo de negócios atual. Hoje em dia, uma janela de lançamento se inicia nas salas de cinema e termina na TV aberta, cada uma com seus lucrativos acordos de distribuição. Geralmente, a exibição nos cinemas ainda é a que mais rende dinheiro.

Com a internet, as fronteiras entre os países deixam de existir, mas o mercado cinematográfico ainda está fortemente enraizado nas divisões geopolíticas do nosso mundo. As restrições regionais são uma dor de cabeça para o usuário que fazem cada vez menos sentido. Quem nunca tentou a assistir a um vídeo no YouTube e se deparou com um aviso dizendo que “baseado em sua localização, o dono do conteúdo não autorizou a exibição”? Ou deu com a porta na cara no Hulu ao tentar ver um trecho do novo episódio daquela série?

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Avisos como este são produto de uma mentalidade ultrapassada

O próprio Netflix, salvador da pátria, não está imune a essas restrições. O acervo disponível varia muito de país em país, e muita coisa que está disponível em mercados mais maduros, como o norte-americano, está longe de aparecer por aqui. Isso porque o mundo dos direitos do conteúdo audiovisual é complexo, chato de entender e uma relíquia dos tempos em que as mídias físicas reinavam absolutas.

Como o conteúdo é rei e o público anda mais exigente, muitas propriedades intelectuais bem consolidadas são fontes fáceis de dinheiro, como Game of Thrones ou How I Met Your Mother. Desse modo, muitas empresas se seguram no que têm e fazem cara feia para quem quer mudar a situação. Seguindo a mentalidade egoísta de alguns detentores de direitos, facilitar a vida do usuário significa abrir mão de faturamento, consequência de modelos de negócios ultrapassados.

Por isso que, do ponto de vista do usuário final, mudanças como as capitaneadas pelo Popcorn Time são benéficas, pois estimulam os players do mercado a saírem de suas posições de conforto e investirem em ofertas mais atrativas para quem, no final das contas, apenas quer ter o seu valor reconhecido pela indústria. O Popcorn Time tornou-se um projeto independente, ganhou versão para Android e também chegou a incluir seriados, até que problemas internos e novas ameaças legais fizeram com que o principal fork do programa deixasse de funcionar em outubro de 2015. Mesmo assim, o seu legado permanece como lição para Hollywood e para os detentores de direitos, enquanto que o público só espera pelo momento da pipoca e de apertar o play.

PUBLICADO POR

Henrique Scherer

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