Políticos e redes sociais um casamento ainda em crise

As mídias e redes sociais quebraram inúmeros paradigmas e um deles foi por fim ao abismo que existia entre os políticos e os eleitores. Acomodados a um modelo de comunicação assimétrico, os políticos tiveram que se adaptar, pois o eleitorado deixou de ser coadjuvante e passou a impor sua pauta.

Todo parlamentar deseja o status de Político 2.0, mas contam-se numa mão os que efetivamente sabem fazer uso das ferramentas para interagir com seus eleitores e conseguir dividendos políticos. Nessa ânsia comentem o maior dos pecados que é se aventurar nas redes sociais sem preparo e planejamento e não dimensionar o estrago que elas podem causar.

Recentemente, dois vereadores capixabas, Alexandre Manhães (PMDB) e Carlos André Paim (PDT), da cidade de Aracruz (ES), mais conhecida pelos casos de corrupção na política do que por suas praias, passaram por maus bocados em um grupo no Facebook por subestimar o poder do viral negativo nas redes sociais.

O primeiro foi criticado por excluir os integrantes de sua rede que começaram a tecer críticas à sua gestão parlamentar. Uma coisa corriqueira acabou tomando uma dimensão maior e o assunto virou um tremendo marketing negativo e acabou nas páginas de um dos principais jornais do estado e Manhães teve que justificar a exclusão das pessoas.

Já o outro caso foi bem mais grave, pois Paim foi acusado de ofender uma eleitora com palavras de baixo calão após ser criticado também pelo seu trabalho na Câmara Municipal. O assunto acabou indo parar nos principais jornais impressos do estado, foi até matéria do G1, o presidente da Câmara teve que se pronunciar e um grupo de moradores de Aracruz se mobilizou para pedir uma Comissão Parlamentar de Inquérito pela quebra de decoro do vereador

Esses dois casos são uma constatação que os políticos têm ainda muito a aprender em relação ao meio virtual. Nesse processo, eles acabam falando ao vento, pois ignoram um preceito básico para o sucesso nas mídias sociais: a interatividade com os usuários. Muitos políticos ainda usam recursos digitais da mesma forma que usavam santinhos e faixas para disputar eleições, ou seja, como uma via de mão única na qual a participação do eleitor está restrita à contemplação.

Outro problema é que as pessoas públicas que adentram as redes sociais o fazem sem preparo e isso é a receita ideal para as crises. A jornalista e especialista em marketing digital Patrícia Canarim explica ser muito comum políticos e outros profissionais acessarem as redes sociais sem nenhum planejamento, em geral, criam um perfil seguindo um modismo e acabam se arrependendo depois.

O segredo para o sucesso, segundo Patrícia é muito simples e atende pelo nome de planejamento. É preciso planejar essa presença digital. Isso inclui definir qual será o segmento de atuação e como essa presença será feita. É importante ter consciência que é impossível agradar a todos. Portanto, ela ensina que é necessário definir que assuntos serão abordados, se o perfil será alimentado pelo próprio profissional ou será por uma equipe. Quais temas serão evitados e em caso de crise, quem será o responsável por responder na web.

No caso dos vereadores, Patrícia aponta o despreparo de ambos como catalisador das crises. Manhães por desconhecer o princípio básico das redes sociais que é a interação, ou seja, falar e, sobretudo saber ouvir, principalmente críticas. Já Paim por envolver-se em um bate-boca com uma usuária. A jornalista alerta que nesses casos é importante tentar identificar a pessoa que gerou a crise e esclarecer os pontos. Lembrar que numa crise, ao responder a uma pessoa, geradora do fato, estamos também nos expondo a uma plateia de seguidores e de pessoas influenciadas pelos envolvidos na crise.

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Internet e política parecem ser caminhos opostos, as vezes.

Influência das redes sociais

As crises em que os dois vereadores nasceram a partir de postagens feitas no Facebook, em um grupo de discussão chamado Faceboca. Esse grupo tem cerca de 3.500 usuários e fiscaliza as ações dos poderes legislativo, executivo e judiciário municipal, além de falar sobre assuntos como saúde, segurança, lazer e educação em Aracruz (ES).

Em minha opinião, os vereadores acabaram cometendo o grave equívoco de subestimar o poder desses grupos que se reúnem em torno das redes sociais para trocar ideias.

O publicitário e analista de mídias sociais, Fernando Junqueira, pensa parecido, ele acredita que um político, uma celebridade ou uma empresa deve pensar muito antes de participar de uma rede social. O poder desses grupos sobre a capacidade de pautar a mídia cresce exponencialmente e um post mal calculado pode sepultar reputações e anos de trabalho árduo.

O editor do blog Midiatismo, Dennis Alterman, segue a mesma linha de raciocínio. Para ele as “mídias sociais online” estão fazendo tanto barulho, pois não há mais como evitar que as pessoas deem as suas opiniões. Os seus pontos de vista estão muito mais acessíveis e algo a princípio irrelevante pode cair no gosto da grande massa e chegar até a grande mídia.

Por fim Patrícia Canarim crê que um grupo numa rede social pode crescer e ganhar visibilidade fora da web, afinal, as mídias sociais são locais para compartilhar informação e muitas vezes geram discussões que podem ou não ser benéficas.

Acredito que a vantagem dos grupos na web, que aproximam pessoas diversas, é justamente essa, a possibilidade de ouvir e conhecer fontes novas, e por isso aprender algo novo. Apesar de imperfeitos, esses grupos são importantes para o fortalecimento da cidadania, pois além de informar, acabam por fiscalizar o meio político. A democracia só tem a agradecer.

PUBLICADO POR

Marcelo Rebelo

Jornalista, relações públicas e pós-graduado em E-commerce. Prestou consultoria em comunicação social e virtual para o Senado Federal, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Programa Fome Zero, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Secretaria Geral da Presidência da República, Unesco e PNUD.

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