Pelo fim da informação jornalística gratuita em prol de um jornalismo cada vez melhor

Cobrar ou não pelo conteúdo jornalístico online é uma questão polêmica que aflige 10 entre 10 especialistas em economia. Como fazer o internauta pagar por algo que pode ser obtido gratuitamente, sobretudo com a disseminação das mídias sociais? A Folha de São Paulo publicou no dia (16/11) uma elucidativa entrevista com o editor executivo do New York Times, Bill Keller, que trouxe luz para essa questão.

Keller foi o responsável pela implantação no jornal do mais discutido modelo de negócios para mídia do ano, o chamado pay wall’ ou ‘muro de cobrança’, em funcionamento desde março de 2011. Nele cada internauta pode ler gratuitamente 20 textos do “NYT” por mês. A partir daí, precisa ter uma assinatura, cujo preço varia de US$ 15 a US$ 35, de acordo com o pacote oferecido.

O ‘pay wall’ tem se mostrado um estrondoso sucesso. O ritmo de adesão de assinaturas ao portal tem sido de uma por minuto. Já são 335 mil assinantes, além dos 800 mil da versão em papel que também podem acessar a edição online do “NYT”. A informação foi dada pela diretora para América Latina, México e Caribe do New York Times, Isabel Sicherle, durante o Seminário Internacional de Jornais da Newsmedia Marketing Association – São Paulo (21 e 22/11).

Creio que essa é uma tendência mundial e os veículos jornalísticos online vêm criando formas de cobrar pelo conteúdo. A versão digital do ‘Diário de Pernambuco’ libera algumas seções como ‘Últimas Notícias e Blogs’ e outras como ‘Política e Economia’ só assinantes podem ter acesso. Já a ‘Folha de São Paulo’ usa um artifício interessante, o leitor tem apenas um aperitivo, um resumo do texto à disposição. Caso queira ler a íntegra da matéria é necessário assinar o jornal ou o site UOL pertencente ao Grupo Folha.

Um dos pontos chaves de toda essa questão – tratada com muita propriedade por Bill Keller – é que a informação gratuita não passa de um mito, pois a produção de uma notícia tem um custo elevadíssimo. Segundo ele, não há como não cobrar pelo jornalismo investigativo que demanda tempo e exige advogados ao seu lado. Não é possível disponibilizar gratuitamente matérias feitas por correspondentes que precisam ir a lugares longínquos e perigosos. Ou mesmo o jornalismo local, que trata do que está acontecendo em nossa cidade, ninguém pode fazê-lo de graça.

Quem já trabalhou num jornal sabe muito bem que o editor do ‘NYT’ tem toda a razão, pois são muitos os recursos despendidos no longo e penoso caminho da pauta até a notícia publicada, seja no meio impresso como no virtual. Isto põe por terra o que muitos gurus da internet preconizavam que a informação em todos os seus formatos – inclusive o jornalístico – seria gratuita e circularia livremente.

Informação livre e gratuita há sim, mas de cunho jornalístico aí é outra questão. Não podemos confundir informação jornalística com opinião. Uma coisa é um texto produzido numa redação com todos os ‘custos’ e os critérios jornalísticos de ‘noticiabilidade’ e a outra é um texto opinativo de um blogueiro anônimo, que não arca com despesa alguma para produzir seus pontos de vista no seu computador. Essa diferença de custos e valores  faz-se presente até nos blogs, tanto que dois dos mais respeitados blogueiros do país Ricardo Noblat e Reinaldo Azevedo têm seus blogs hospedados em fortes veículos de comunicação como  ‘O Globo’ e “Veja’ e são remunerados pelo que produzem.

Nem mesmo as mídias sociais como Twitter e Facebook disseminadoras de conteúdo são capazes de substituir o jornalismo profissional como fonte geradora de informação. Não procuramos essas plataformas para ler uma notícia sobre a Primavera Árabe ou sobre a mais nova denúncia de corrupção na Esplanada dos Ministérios.  Elas apenas nos linkam para onde a informação foi produzida, ou seja, nos jornais.

O jornalista André Barcinsk, em post no seu blog, dia 20/11, foi muito preciso ao enfatizar a importância do jornalismo na produção informacional. Para ele, a internet mudou, de fato, a maneira como a informação chega às pessoas. Mas ele não crê que ela tenha mudado a maneira como ela surge. Ou seja: por mais que a web, os blogs e o Twitter ajudem a disseminar as notícias com uma rapidez impressionante, eles não teriam o que noticiar se não fosse o trabalho dos jornais.

Outra questão delicada é a confusão – muitas vezes deliberada – entre informação gratuita e pirataria. É comum encontrar textos produzidos por veículos de imprensa circulando na web sem autorização. É a velha técnica do copiar, colar e disseminar. Isto não é ético: na verdade trata-se de crime passível de punição.

Num ponto os especialistas econômicos concordam: mais cedo ou mais tarde as pessoas terão que se acostumar a pagar pelo conteúdo dos jornais online. É o que vem ocorrendo com as músicas digitais, antes pirateadas, mas graças a um bom trabalho de marketing, hoje as pessoas aceitam pagar por elas. Vide o Netfix que há pouco se instalou no Brasil.

No caso dos jornais online, os marqueteiros têm pela frente o desafio de colocar por terra –  o quanto antes – o mito de que a rede é fonte provedora de informação jornalística gratuita. O jornalismo de verdade aguarda ansioso por esse dia!

PUBLICADO POR

Marcelo Rebelo

Jornalista, relações públicas e pós-graduado em E-commerce. Prestou consultoria em comunicação social e virtual para o Senado Federal, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Programa Fome Zero, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Secretaria Geral da Presidência da República, Unesco e PNUD.

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