O link é o veneno na ponta dos tweets


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Um pigmeu engenhoso transformou seu pedaço oco de raiz numa zarabatana. Pegou a munição no espinheiro e saiu soprando seus dardos pela selva. Não demorou a ser imitado por outros integrantes da tribo, que espalharam a novidade pela floresta. Como arma, o artefato era pouco eficiente. Quem se aventurou a caçar, voltou para a aldeia com um bicho irritado correndo atrás.

O Twitter começou da mesma forma. Divertido, bom de soprar pela rede e inofensivo. O microblog tinha tudo para fazer sucesso entre os especialistas em dizer muito com poucas palavras. Mas, ao invés de seduzir adeptos do haicai e aforistas, conquistou os filhos do MSN. Caiu no gosto dos versados na arte da síntese descomprometida. A primeira pergunta elaborada pelo Twitter era uma homenagem aos redatores lacônicos e um convite à banalidade.

-O que você está fazendo, agora?
– Estou no computador.
– E agora?
– Continuo.
A maldição ainda assombra as timelines. Para quem duvida, sugiro o monitoramento da palavra banho (aqui). Prepare-se para centenas de Vou tomar banho, já tomei banho e, com menor frequência, estou tomando banho – porque são poucos os que se arriscam a molhar smartphones e laptops.

Voltando à selva, encontramos nosso pigmeu desanimado. A brincadeira ficou enfadonha. O feiticeiro, que sempre acreditou no potencial bélico da arminha, apareceu com uma solução animadora. Preparou um veneno, molhou a ponta do espinho e matou um javali.

#fui, outra hastag comum.

#fui, outra hastag comum.

O Twitter também foi beneficiado pela pajelança que uniu uma pergunta mais sugestiva – o que está acontecendo, agora? – à necessidade natural de agregar à resposta um link impregnado de veneno multimídia. O pigmeu que existe em cada internauta foi desafiado a olhar o mundo em sua volta e reverberar.

Hoje, para abrir mão de fotos, vídeos, infográficos e textos mais completos, é preciso misturar talento e pertinência na medida certa, até virar peçonha. Existem raridades letais trafegando na rede. São tweets que se garantem nos seus 140 toques e recebem dezenas de retweets. Esse tipo de mensagem – espécie de link que tem a si como referência – é coisa de tuiteiro feiticeiro. Para os não iniciados, resta a comodidade de poder agregar ao final de suas mensagens uma url curta, que pode ser mortífera como cianureto.

PUBLICADO POR

Osmar Soares de Oliveira Filho

Jornalista e observador das redes sociais.

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