E o digital além de matar o furo ainda impõe mudanças no impresso

O rádio e a TV já haviam retirado faz muito tempo do jornalismo impresso a exclusividade do furo. Hoje, o jornalismo virtual e as mídias sociais foram além e estão retirando dele a primazia sobre a informação. Informar ainda é relevante, mas não mais o suficiente. Nos dias de comunicação instantânea, a relevância não está mais em noticiar o fato, mas sim em analisá-lo e contextualizá-lo.

Com a disseminação da internet e a massificação do webjornalismo, muitos gurus vaticinaram que o jornalismo impresso estava com os dias contados. Era apenas questão de tempo a migração em massa do papel para as telas. Na verdade conversa jogada fora, pois os jornais impressos continuam firmes, fortes e vendendo bem. Segundo a Associação Mundial de Jornais (Wan-Ifra), cerca de 2,3 bilhões de pessoas leem a mídia impressa todos os dias, enquanto a internet alcança 1,9 bilhão em todo o mundo. Os dados foram apresentados durante 63º Congresso Mundial de Jornais organizado pela Associação que aconteceu na Áustria – Viena em outubro de 2011.

No Brasil a situação não é diferente, pois os leitores crescem com a redução do número de analfabetos e com a ascensão econômica das classes C e D movida pela estabilidade da economia. O Instituto Verificador de Circulação (IVC) divulgou que no país a circulação de jornais registrou um crescimento de 4,2% no segundo semestre de 2011, comparado ao mesmo período em 2010. Em média, foram 4.435.581 exemplares por dia, maior número já registrado desde o início das pesquisas, realizadas há 50 anos. Isso demonstra a força do impresso e que ele tem ainda muita lenha para queimar. Entretanto, muitos jornais conseguiram entender as mudanças provocadas pela web – principalmente as impostas pelas mídias sociais – e estão mudando o modo de editar a notícia.

É incompreensível abrir um jornal e se deparar com matérias que simplesmente narram um jogo de futebol, descrevem um determinado acidente ou dão o resultado de uma votação no Congresso. Isso sim está absoleto e não faz mais sentido noticiar dessa forma, pois tais informações quando chegam ao leitor já foram veiculadas e esmiuçadas pelos meios digitais. Como a plataforma digital trabalha com a instantaneidade, os fatos ao longo dos acontecimentos são montados e aprofundados em diversos ângulos. Além do que, o meio digital permite a utilização de vários recursos que enriquecem a matéria e a tornam mais atraente para o leitor como uso de áudios, vídeos, animações, gráficos e links com fatos correlatos.

A simples resposta as cinco perguntas do lead, em torno do qual a notícia se desenrola, é ainda fundamental, mas a instantaneidade do meio virtual, fez com que isso se tornasse insuficiente. Hoje, apenas dar o fato não basta, é necessário entender, analisar e interpretar o significado da notícia levando em conta o contexto, as circunstâncias de ocorrência e principalmente o desdobramento e as consequências do informado.

Muitos jornais já compreenderam isso e a análise tem cada vez mais destaque e vem ocupando mais páginas nos jornais impressos. Tem sido comum uma notícia vir precedida por um texto analítico feito por algum especialista avaliando e opinando sobre o fato em questão. Em alguns casos mais polêmicos são feitas análises antagônicas, dando opção ao leitor de posicionar-se sobre tais pontos.

Outra peculiaridade tem sido a contratação de personalidades e formadores de opinião das mais diversas áreas para a produção de artigos sobre tópicos diversos. A Folha de São Paulo tem feito isso com muita propriedade. Segundo a ombudsman do jornal, Susana Singer, o veículo conta hoje com 83 pessoas com espaço fixo para opinar, sobre temas plurais, sem contar os jornalistas do Grupo Folha possuidores de espaços opinativos.

Em função da rapidez e da instantaneidade promovidas pelas plataformas digitais o furo – outrora objeto de culto, encarado pelos jornalistas como o troféu máximo da categoria e um atestado de qualidade e eficiência, dado ao jornal – hoje se tornou uma espécie em extinção e praticamente abandonado pelos jornais. Até nas plataformas digitais de webjornalismo ele não tem tanto mais importância, pois o delay de exclusividade sobre a publicação de um assunto é de alguns minutos apenas. Assim, muitos veículos têm substituído o furo pela matéria de qualidade, ou seja, bem apurada, completa e consistente.

E dessa maneira o jornalismo impresso se adapta às mudanças provocadas pelas plataformas digitais, convergindo forma, conteúdo e segue firme em seu papel de informar a opinião pública e fiscalizar a sociedade.

PUBLICADO POR

Marcelo Rebelo

Jornalista, relações públicas e pós-graduado em E-commerce. Prestou consultoria em comunicação social e virtual para o Senado Federal, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Programa Fome Zero, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Secretaria Geral da Presidência da República, Unesco e PNUD.

Novidades e atualizações, direto em seu e-mail