Disseminar vídeos de crueldades com animais nas redes sociais é positivo

Os gurus da internet ainda não conseguiram desenvolver uma fórmula exata para a criação de vídeos virais de sucesso. Acredito que a dificuldade exista por tratar-se de uma experiência complexa e por vezes visceral cujo resultado final – a disseminação – depende de fatores que captam a atenção dos expectadores por meio dos seus sentimentos. Infelizmente, os vídeos de crueldade com animais possuem todos esses ingredientes e quando postados na rede viram hits instantâneos.

Basta uma busca qualquer no Google para encontrar milhares de vídeos, notícias e comunidades que tratam do tema. Algumas inclusive incentivadoras desses atos. No mês passado, os vídeos da cadelinha Yorkshire espancada até a morte e do jovem inglês que alimentou sua cobra píton com o gatinho da família causaram muita comoção nas redes e nas mídias sociais daqui e do Reino Unido.

Para se ter uma dimensão do impacto causado pelo ato da enfermeira Camila Corrêa, no dia (15/12), data em que as cenas da agressão à cadela foram postadas no Youtube, em uma das cópias que se espalharam pela rede, foram contabilizados mais de 60 mil acessos em um único dia. A agressão ao animal também entrou rapidamente para os TTs do Twitter e milhares de comunidades de repúdio ao ato foram criadas, sem contar as cerca de 40 mil ameaças à integridade física da agressora, feitas por meio das redes sociais, conforme informou o advogado da acusada, Gilson Saad.

Nos meios jornalísticos, onde o assunto reverbera até hoje, a situação não foi diferente, ao conferir uma única notícia sobre esse incidente de autoria da jornalista Gabriela Lima para o G1, que pode ser vista aqui, publicada dia (17/12), foram constatados: 871 comentários, 621 tuítes e 13 mil curtidas no Facebook. No homônimo inglês, a repercussão dos indignados no velho continente não foi muito diferente.

Quando aparece um fato causador de muita comoção por atingir o emocional das pessoas, como essas violências, muitas opiniões e teorias surgem. Nas discussões nas redes sociais e nos comentários nas matérias, os agressores foram chamados de sádicos, psicopatas e outros epítetos. Além das teorias disseminadas de que a postagem desses vídeos nas mídias sociais pode causar um efeito cascata e incentivar a prática de agressões aos animais – teoria à qual eu era partidário.

Essas questões apesar de conseguirem forte eco nas redes sociais não possuem respaldo no meio psiquiátrico. Segundo o vice-presidente da Sociedade Paranaense de Psiquiatria, Sivan Mauer, falar sobre pessoas que torturam animais não é algo simples, não se pode simplesmente taxá-las de sádicas ou psicopatas como muitos leigos fazem. Ele explica que no geral tais indivíduos têm sim algum tipo de distúrbio psiquiátrico. São geralmente pessoas frias, detentoras de personalidade antissocial e possuidoras de muita dificuldade em lidar com as frustrações o que, por si só, é algo muito grave.

Em relação à disseminação dos vídeos em rede, Mauer não crê que após a veiculação de um vídeo viral surja uma onda de pessoas maltratando ou torturando animais. Ele inclusive acha o contrário, pois tais vídeos, na opinião dele, devem sim ser exibidos como forma de denunciar os maus tratos. Quem pratica um ato desses, segundo o psiquiatra, deve ser exposto em cadeia nacional e responsabilizado criminalmente pelas suas ações.

Sobre a bizarrice praticada pelo jovem que alimentou sua cobra com o gato, chegando ao absurdo de colocar o animal num gorro de Papai Noel, como um presente para o réptil, o psiquiatra afirma que isso deveria ser tratado como um caso crônico de uma pessoa extremamente mimada e com déficit de atenção. Segundo ele, muitos desses problemas ocorrem por falta de limites, pois o ser humano necessita deles e quando não existem acontecem os abusos. Em muitos casos a sociedade é permissiva com esses atos. Ele acredita que a solução para coibir tais absurdos seria o endurecimento das penas para quem comete tais crimes.

Penas muito brandas

Entidades e grupos defensores dos direitos dos animais têm a mesma opinião do psiquiatra, tanto em relação à divulgação desses vídeos como na adoção de penas mais rígidas para os agressores. Segundo a presidente da SUIPA (Sociedade União Internacional Protetora dos Animais), Izabel Cristina Nascimento, nos últimos anos, o brasileiro começou a utilizar mais a internet e, devido à facilidade e à rapidez na divulgação dos fatos, as pessoas começaram a tomar conhecimento, pelas redes sociais, dos maus tratos aos animais. Esse era um assunto desconhecido para a maioria, mas muito comum e conhecido pelos protetores.

Izabel vê com bons olhos a disseminação desses vídeos em rede como forma de conscientizar as pessoas para esse problema. Ela também não acredita que a postagem incentive a violência contra os animais. Segundo ela, a discussão desse tema nas redes é positiva porque a realidade diária conhecida pelos protetores precisa ser amplamente divulgada, para que as pessoas possam refletir sobre a violência praticada, aos ditos “irracionais”, pelos ditos “racionais”.

A presidente defende ainda uma mudança na legislação que trata do tema como forma de endurecer a pena para quem pratica tal ato. Ela explica que nas leis brasileiras, os animais “não humanos”, são chamados de ‘objetos de direito‘, enquanto que os “animais humanos” são considerados ‘sujeitos de direito‘. Enquanto os “animais não humanos” não forem incluídos na categoria de sujeitos, as penas continuarão muito brandas e, os agressores continuarão impunes, pagando, quando condenados, no máximo, uma cesta básica ou cumprindo alguma pena alternativa.

Hoje, os maus tratos contra animais domésticos são enquadrados na lei de crimes ambientais (nº 9605/98). A pena varia de três meses a um ano de prisão, no máximo um ano e meio, se há a morte do animal. Os casos acabam convertidos em penas alternativas, com o pagamento de cestas básicas ou a realização de serviços comunitários.

O Centro de Controle de Zoonoses da maior cidade do país, São Paulo, recebeu em 2011, aproximadamente 8.702 denúncias de maus tratos e mais da metade foi confirmada após vistoria.

A sociedade deve aceitar o fato que essa triste realidade existe e as redes e mídias sociais são canais fundamentais para conscientizar as pessoas, sobretudo as autoridades, para a importância de se combater essa covardia

 

 

PUBLICADO POR

Marcelo Rebelo

Jornalista, relações públicas e pós-graduado em E-commerce. Prestou consultoria em comunicação social e virtual para o Senado Federal, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Programa Fome Zero, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Secretaria Geral da Presidência da República, Unesco e PNUD.

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