As novas tecnologias e a democracia


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E o Brasil vira modelo mundial de combate à corrupção! Eu li isso na mídia. E quem disse foi ninguém menos que Hillary Clinton, secretária de Estado norte-americano e uma das pessoas mais poderosas do mundo. Mas afinal, como diria a frase da música de Nando Reis, estaria “o mundo ao contrário e ninguém reparou”?

Talvez, pela primeira vez, tenhamos as bases reais para a diminuição da corrupção no Brasil. E essa mudança significativa só é possível graças às novas tecnologias. Claro que a determinação política foi o motor dos fatos. Mas a configuração que o mundo está prestes a conhecer só é possível tecnicamente graças às novas tecnologias.

Foi Humberto Maturana quem nos alertou para o fato de que a democracia é contemporânea à criação das praças públicas. Se a reunião de pessoas em espaços para debate público criou as condições para que os desejos de democracia eclodissem, qual seria o potencial de uma arena de debates virtual sem limites geográficos, um “ágora global”? Ainda é utópico imaginar uma democracia direta no Brasil, com a participação de todos os cidadãos na busca pelos interesses coletivos. Mas é inegável a amplificação das condições e da efetiva participação da sociedade civil nas questões de interesse geral.

Pierre Lévy apresentou-nos, antecipadamente, as bases desse novo modelo. Em 1994, quando a internet ainda levaria alguns anos para chegar à segunda geração de comunidades e serviços, ele lança seu livro “Inteligência Coletiva”, com a visão desse mundo de alta conectividade, onde a comunicação se dá de muitos para muitos.

E foi assim que tudo, de fato, se deu. Se antes tínhamos uma comunicação de um para muitos, isso já não é mais o único padrão de fluxo de informação.

Sou da geração X, para usar um termo bem aderente ao universo digital. Em minha juventude, o poder econômico era o detentor da “voz”, pois só havia um fluxo de informação. Esse poder econômico e político tinha acesso aos meios de comunicação de massa. Emissoras de televisão e de rádio são concessões federais e os proprietários de canal ganhavam do governo o direito de ter uma emissora ou repetidora. Até a Constituição de 1988 era o presidente da República quem dava a concessão. Dá para imaginar os critérios de distribuição! Só para se ter uma ideia da farra, pouco antes da promulgação da atual Constituição, o então presidente Sarney concedeu 60 novas concessões, sendo duas para si próprio. A grande maioria das emissoras de rádio e TV sempre esteve nas mãos de aliados do poder político. Um formato que permitia a perpetuação do poder.

Considerando que o noticiário das emissoras era o único a repercutir conteúdos, é certo dizer que tínhamos acesso a pouquíssima informação de qualidade. Éramos reféns da comunicação de massa, nas mãos de poucos “escolhidos”. Restava-nos o papel de ouvintes, quando recebíamos informações repletas de filtros e nossas manifestações raramente reverberavam.

Com a mudança no padrão de comunicação, os “muitos” ganharam voz e hoje pressionam os detentores do poder político e econômico a tomar decisões mais democráticas.

Portanto, qualquer otimismo não é descabido. Graças às tecnologias, às redes sociais, aos sites colaborativos, a população poderá acompanhar os gastos públicos, os investimentos, dar sua opinião, manifestar seu apoio ou contrariedade, criar ou ampliar debates, promover movimentos por mudanças. Tudo ao alcance de um clique. Não é tão necessários sairmos mais de nossas casas para as manifestações. Nossas ideias caminham mais rápidas no plano virtual.

O governo brasileiro tende a abrir cada vez mais à participação popular. Mas há aqueles países que preferem a manutenção do poder junto a uma classe política minoritária. Casos como China, Coreia do Norte, Cuba e até mesmo a Coreia do Sul, entre tantos outros. Fomos beneficiados pelo reforço das bases democráticas nas últimas décadas. E agora, com essa posição, o governo brasileiro está abrindo mão de obstruir nossa participação. Pelo contrário, direciona seus esforços no sentido de ampliar essa participação. Decisão corajosa e em sintonia os tempos atuais. Sempre tivemos altas taxas de corrupção em todas as esferas do poder público e agora, com milhões de vigilantes virtuais, teremos condições de fazer valer o interesse coletivo.

De volta à tecla que mais tenho batido. O mundo digital, para os profissionais do marketing e da comunicação de uma forma geral, é menos propaganda e mais modelos de negócios. Porque o que vem afetando tão radicalmente as políticas públicas nada mais é do que um modelo diferente de se fazer as mesmas coisas de sempre (na quase totalidade dos casos). Se quisermos transpor este artigo do caráter político para o mercadológico, basta alterar algumas palavras. Porque é o mesmo que ocorre nas empresas, com uma transferência gradativa do poder de decisão para o cliente. Tratei desse assunto em outro artigo, relacionado ao dilema das empresas nas mídias sociais.

Mas voltando ao caráter político e fechando essa reflexão (pelo menos por enquanto), outro assunto me chamou a atenção esta semana. No exato momento histórico em que o Brasil consolida sua participação na 1ª Conferência de Alto Nível para Governo Aberto (OGP), buscando bases mais fortes para evitar a corrupção e chamar a população à participação política, Sarney quase teve um infarto. Foi só coincidência, claro, mas não deixa de ser emblemático.

PUBLICADO POR

Roberto Lemos

Publicitário, especialista em marketing digital e professor em Brasília de mídias sociais nos cursos de Jornalismo e de Publicidade e Propaganda.

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