A teoria do espelho e o reflexo da mediocridade no jornalismo de entretenimento praticado na web

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Defendida por muitos, a Teoria do Espelho traduz a idéia da fotografia e sua reprodutibilidade técnica, ou seja, o jornalista é um observador desinteressado, que retrata fielmente a realidade. Nesse momento de frenesi midiático por qual o mundo vive, ela cai como luva para o jornalismo de entretenimento, sobretudo o praticado na web, que está no chão por refletir com perfeição em seus textos a mediocridade pela qual passa a indústria do entretenimento mundial.

Com a globalização e a instantaneidade da informação, promovida pela internet e incrementada com as redes sociais, o modelo cultural mundial passou a ser o norte-americano, incentivador do consumismo, um prazer almejado mundialmente. Assim, o jornalismo de entretenimento praticado por lá – de culto às celebridades, de incentivo à indústria milionária dos paparazzi e de imposição a padrões de beleza absurdos é hoje macaqueado em todo o globo.

Entretanto, não precisamos continuar com o nosso complexo de vira-latas – como se referia Nelson Rodrigues ao sentimento tupiniquim de inferioridade aos europeus e aos norte-americanos – pois estamos em condição de competir cabeça a cabeça com os gringos no quesito de como se produzir um jornalismo de entretenimento de péssima qualidade.

Basta uma navegada superficial nos três principais portais do país para comprovar o baixo nível do jornalismo de entretenimento praticado aqui. As manchetes fazem rir de tão risíveis e o conteúdo chega mesmo a assustar. “Kutcher faz lista com promessas para reconquistar Demi Moore”, “Grazi faz ensaio sensual e diz que usava enchimento”, “Luana Piovanni chama Carolina Dieckman de tronquinho” e outras pérolas. E a coisa segue ruim.

O imbróglio causado por uma piada grosseira dita por Rafinha Bastos para Wanessa Camargo virou um espetáculo à parte e, após quase três semanas o fato ainda reverbera na mídia e nas redes sociais. A surreal manchete do site F5, canal de entretenimento da Folha, “Feto de Wanessa é autor de processo contra Rafinha Bastos”, foi verdadeira aula de jornalismo em como se criar um Fait Divers.

Imagem via Ronaldo Magella

E a expressão ‘aquilo que está ruim, pode ainda piorar’ é levada à risca com o fim do diploma para o exercício da profissão. Ao invés de profissionais, veem-se aspirantes a celebridades atuando como repórteres, principalmente na TV. As entrevistas e matérias realizadas são puro nonsense com os entrevistados sentindo-se à vontade para falar da dieta, negar boatos, divulgar trabalhos, gargalhar, reclamar dos paparazzi, enfim uma festa entre amigos.

O curioso nessa relação é que a fronteira entre fonte e repórter, base para a isenção e um dos pilares para a produção de um texto jornalístico de qualidade, simplesmente não existe. O professor e pesquisador, Nilson Lage, ensina que é tarefa comum dos repórteres selecionar e questionar suas fontes, colher dados e depoimentos, situá-los em algum contexto e processá-los segundo as técnicas jornalísticas. Assim, técnica e teoria são ignoradas e conceitos díspares como jornalismo e assessoria de imprensa fundem-se.

Acredito que, além da globalização, um dos principais motivos para o declínio da qualidade do jornalismo de entretenimento esteja na facilidade e baixo custo de produção das notícias propiciadas pelo meio virtual. Hoje, meia hora, após uma celebridade ser fotografada já existe uma nota num site. Nesse processo tem-se a clara impressão de que a teoria do Gatekeeping, importante por exercer um filtro na qualidade informacional, parece não ter mais valor, pois com a inexistência de limites espaciais e custo quase zero para publicação de textos na web, há espaço para postar qualquer coisa. Desse modo, a qualidade informacional, pressionada pela rapidez e pela instantaneidade com que a informação é obrigada a circular no meio virtual, acaba cedendo lugar ao fugaz e ao descartável.

O lamentável é que profissionais com prática e vasta bagagem cultural, aptos a produzir um jornalismo de entretenimento de qualidade veem sua área de atuação cada vez mais reduzida. A crítica literária, teatral, cinematográfica e musical que exige anos de estudo e preparação foi relegada a cadernos e matérias especiais nos meios impressos e sumariamente substituída pela resenha nos sites.

Acredito que o empobrecimento do jornalismo de entretenimento é um caminho sem volta, pois enquanto houver público disposto a consumir esse tipo de assunto mais material com esse cunho será produzido. Nem mesmo o Código de Ética dos Jornalistas pode ajudar a reverter essa situação, pois o inciso II, do artigo 6º, diz que ‘é dever do jornalista divulgar os fatos e as informações de interesse público’ e como o interesse do público tem se voltado para o que está no fundo do fosso, acostumemo-nos com o que há de pior então.

PUBLICADO POR

Marcelo Rebelo

Jornalista, relações públicas e pós-graduado em E-commerce. Prestou consultoria em comunicação social e virtual para o Senado Federal, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Programa Fome Zero, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Secretaria Geral da Presidência da República, Unesco e PNUD.

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