Internet em sala de aula é utopia em terras tupiniquins

terça-feira, 14/08/12

Há uma corrente muito forte defendendo que a disseminação da internet em sala de aula é a tábua de salvação para despertar o interesse dos alunos; além de ser um antídoto para o ultrapassado modelo de ensino brasileiro calcado em uma comunicação unilateral. São milhares de artigos,  pesquisas e análises de especialistas, além de incontáveis teses de estudo. Apesar de bem intencionado – tal pensamento é pura utopia -, pois basta uma análise superficial no serviço de banda larga e no índice de alfabetismo praticados por aqui para colocar por terra tal discussão.

Milhares de acadêmicos e especialistas acusam o atual modelo de ensino de desinteressante, medíocre e enfadonho, por isso fracassado em não conseguir prender a atenção de um público dinâmico e hiperconectado. Hoje, a chamada “Geração Z” tem como maior característica o fato de estar o tempo todo plugada e informada em excesso. Esse grupo nasceu dentro de uma realidade volátil, efêmera e globalizada. Dada tal realidade, muitos especialistas acham que chegou a hora de pôr em prática uma “nova aula” capaz de conectar esse “novo aluno”.

O professor de História e pós-graduado em marketing de mídias sociais, de uma escola particular de Belo Horizonte (MG), Flávio Tomazzi, é um dos que defende mudanças urgentes. Segundo ele, o modelo do professor falando frente ao quadro negro com a turma em silêncio anotando precisa ser repensado. “Sinto muita dificuldade em me comunicar em sala com jovens hiperconectados com seus celulares, smartphones e tablets”, afirma. Ele defende a adoção, o quanto antes, de ferramentas interativas como redes e mídias sociais como forma de complementar o ensino.

internet computadores nas escolas Internet em sala de aula é utopia em terras tupiniquins
Será que dar internet e computadores para as crianças é a solução para a educação?

Mesma opinião tem a pedagoga, Paty Fonte, autora do livro “Projetos Pedagógicos Dinâmicos: a paixão de educar e o desafio de inovar”, nele a questão tecnológica no aprendizado é tratada com muita propriedade. Segundo ela, o ensino tradicional baseado na transmissão e no acúmulo de informações não condiz com a sociedade da informação, globalizada e multimídia. “Os alunos de hoje anseiam pelo aprendizado que desafie seu conhecimento pela web. A internet facilita a motivação dos alunos, pela novidade e pelas possibilidades inesgotáveis de pesquisa que oferece”, defende no livro.

Exemplos em como integrar a internet às práticas pedagógicas não faltam, basta uma busca no Google para ter à disposição milhares de dicas e modelos bem sucedidos, embasados por todo tipo de especialistas. Para não nos alongarmos muito, fiquemos com o exemplo do grupo Universia, uma rede de cooperação universitária presente em todos os países Íberoamericanos e financiada pelo grupo Santander, que tem investido muito em pesquisa nessa área. É deles o interessante artigo: Guia prático com 25 dicas para integrar as mídias sociais em sala de aula.

O difícil é  a prática

Não há como não aplaudir esse pensamento e torcer para que tais mudanças venham o quanto antes. O problema é sair da teoria e partir para a prática, ainda mais dentro da realidade educacional brasileira. Os exemplos de casos bem sucedidos de interação entre internet e sala de aula, mostrados pelos especialistas, quase na totalidade, são calcados em cima de modelos adotados nos países nórdicos e orientais como Noruega e Japão. Nesses locais, a educação é tratada com muito respeito e como prioridade máxima e a inclusão digital atinge a totalidade da população.

No Brasil, infelizmente, a educação nunca foi prioridade e a inclusão digital parece um ideal inalcançável. Para se ter uma ideia, o último levantamento do Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf), do Instituto Paulo Montenegro, mostrou que apenas 26% da população brasileira de 15 a 64 anos é plenamente alfabetizada. Isso significa que três quartos da nossa população não seriam capazes de ler e compreender este texto. O último censo do IBGE apontou que somos 14 milhões de analfabetos, um índice pior que o do Zimbábue, país cujo PIB equivale a 5% do nosso. Além disso, há ainda os problemas crônicos da educação, sobretudo no ensino público, amplamente conhecidos como: baixos salários, falta de estrutura nas escolas, insegurança, falta de investimento na qualificação dos professores, dentre muitos outros.

Além do desalentador índice de alfabetismo, o acesso à internet é outro problema muito grave. Apesar do número de usuários de banda larga ter mais que dobrado em um ano, os resultados são ainda tímidos e medíocres. Segundo o estudo NetSpeed Report, do IBOPE Nielsen Online, o número de usuários ativos de conexões à internet de mais de 2 MB chegou a 16,8 milhões de pessoas, em junho de 2012. No mesmo período do ano passado, eles chegavam a 8 milhões.

Tais fatores são suficientes para nos levar a crer que a tão sonhada disseminação da internet em sala de aula é ainda uma utopia, porém um ideal a ser perseguido. O professor e consultor pedagógico de EAD e um estudioso no uso das TICs em sala de aula de Campinas (SP), José Carlos Antônio, também está pessimista, principalmente, no que diz respeito à questão da banda larga no país, na opinião dele, esse serviço é estreito, ruim e caro. “Para que essa realidade se torne possível, todos os alunos deveriam possuir dispositivos que permitissem o acesso à internet e sabemos que a maioria das escolas sequer dispõem de redes wirelles abertas. Essa é uma questão estrutural e não pedagógica”, comentou.

Segundo Antônio, graças à fracassada política de banda larga, o ensino brasileiro tem desperdiçado ótimas oportunidades para incrementar as aulas por meio da internet. Segundo ele, o modelo de ensino brasileiro é um modelo baseado na Revolução Industrial e já fracassou. É preciso desconstruir esse modelo e criar um novo baseado na sociedade do conhecimento e não mais em uma sociedade fabril. A tentativa de levar “inovações de práticas” sobre uma estrutura inadequada tem se mostrado ineficaz.

A professora da rede municipal de Linhares (ES), Fernanda Santos Ghidetti, tem a mesma opinião. Segundo ela, a negra realidade enfrentada em sala é muito diferente daquela colorida apresentada pelos teóricos. “Como falar em tecnologia da informação com alunos que chegam em sala famintos e drogados? Como aplicá-la em escolas que nem sequer possuem carteiras para todos os alunos?”, desabafou.

Segundo Fernanda, o contato dos seus alunos com a Tecnologia da Informação e Conteúdo (TIC) é mínimo, esparso e se resume ao Facebook e jogos. Outro fator apontado por ela é a falta de condições e preparo por parte dos professores para lidar com as TICs. “Hoje um professor tem que trabalhar três turnos praticamente ininterruptos por causa dos baixos salários, assim não sobra tempo para se qualificar e mal para preparar as aulas”, explicou.

Ela logicamente concorda que as TICs são ferramentas valiosas para o incremento do ensino e torce para que seja logo disseminada. “O problema é que a quase totalidade desses teóricos são pessoas que nunca entraram em sala de aula e pintam um quadro utópico, irreal e, por vezes, infantil sobre a disseminação da internet nas nossas escolas”, finalizou.

Não podemos negar que os benefícios oferecidos pelas TICs em sala de aula são inquestionáveis, tanto para os alunos como para os professores, mas implementá-lo dentro da atual realidade brasileira tem se mostrado uma utopia. Caso a questão não seja tratada com a seriedade e a importância devida pelos órgãos governamentais, o tema, como bem disse a professora da rede municipal de Linhares, servirá apenas para ilustrar teses ricas de conteúdo, mas vazias para serem aplicadas na prática.

  • http://www.facebook.com/ineedrock Fernando Oliveira
    Ótimo post!
    • http://www.facebook.com/marcelo.rebelo1 Marcelo Rebelo
      Olá Fernando… muito obrigado pela força!
  • Jenny Horta
    Olá Marcelo! Concordo com você em alguns pontos e como muitos, discordo em outros. Nem todos os precursores s~ao apenas estudiosos acadêmicos e existem sim, muitos professores ativos no uso das tecnologias. Ninguém apregoa que a internet vai salvar a educação. É quase o oposto. A educação com tecnologia é para englobar a chamada cidadania digital. Para formar cidadãos conectados, mas críticos e ativos.
    Na prática? Conheço muitas experiências que você poderia conferie, mas vou citar a minha: http://escolaedificar.blogspot.com
    • http://twitter.com/mrebelo71 Marcelo Rebelo
      Oi Jenny… muito legal a sua experiência, concordo plenamente que a tecnologia é uma aliada importantíssima da educação. A questão é que na minha opinião não há uma política governamental para isso e o que vemos são iniciativas pessoais como a sua. Valeu pelo comentário… abs!
  • Piti Lago
    Também penso que falta muito para a internet ajudar a educação. Considerando claro que procurar e copiar conteúdos indicados pelo Google não contribuem para uma melhora. Mas, para resumir, diria que é preciso qualificar professores para enfrentar a relação educar/ensinar utilizando de tecnologias (internet inclusa), fora isto é dinheiro posto fora. Temo porém que já perdemos o ponto de partida e agora temos alunos melhores preparados que professores.
    • http://twitter.com/mrebelo71 Marcelo Rebelo
      Oi Piti… você tem toda a razão! Os professores hoje não têm condições mínimas para se qualificarem frente ao desafio do ensino em função das novas mídias. O que vemos de sucesso são inciaitivas individualizadas de alguns profissionais e de algumas instituições. Concordo que perdemos a partida e estamos cada vez mais atrasados em relação aos países dos velhos continentes.
  • Kókoj
    Marcelo, Tupiniquim é o nome de um Povo Indígena, com letra maiúscula e sem uso de plural, “Terras Tupiniquim”. E na minha opinião, se quer falar sobre atraso educacional fique à vontade, mas por favor, não faça relações com nenhum dos 230 povos indígenas existentes hoje no Brasil. É um desrespeito, um atraso para nós, que temos nossa própria educação bilíngue, específica e diferenciada, que a maioria dos brasileiros nem sonha o que é. Entenda, por favor, minha crítica e a relação que grande parte das pessoas fazem ao se referir a Povos Indígenas como uma forma culturalmente atrasada e que precisa urgentemente de avanços! Você deve ser brasileiro, mas com certeza não é um Tupiniquim!
    • http://www.dennisaltermann.com.br/ Dennis Altermann
      É comumente usado o termo “terras tupiniquins” para identificar o povo brasileiro, já que Tupiniquim é um povo indígena de origem brasileira. Não acho que este termo esteja sendo usado de forma desrespeitosa.
  • Kókoj
    O termo identifica o povo brasileiro sim, especialmente, em sua
    indianidade (ser indígena). O texto reflete sobre o atraso educacional do país
    e tem ligação direta na escolha do termo usado no título, um termo pejorativo,
    no sentido de mostrar como o povo brasileiro pode ser atrasado, seja em
    questões educacionais, culturais ou tecnológicas, na verdade, um senso comum da
    própria sociedade brasileira para com os povos indígenas. Se o artigo tivesse
    sido escrito por um Tupiniquim, a escolha por essa expressão não teria sido
    utilizada. Em caso de dúvida, mostre seu artigo para um professor indígena e
    veja como vai reagir ao ler o texto. Obrigada, boa sorte, abs.