Para trazer a pessoa amada é só clicar

A disseminação da internet por todo o planeta validou de modo inquestionável a teoria da Aldeia Global do professor Marshall McLuhan, ele só não foi capaz de prever a inclusão do “além” nessa aldeia virtual. Hoje com alguns cliques do mouse tem-se a promessa de trazer a mulher amada, desgraçar a vida do chefe tirano, curar doenças e até enriquecer. Tudo isso graças ao processo de adesão dos praticantes do ocultismo ao comércio eletrônico.

Basta uma busca no Google para encontrar centenas de sites dos mais diversos credos, garantindo canais diretos com os desencarnados. Os serviços oferecidos vão desde ofertas de orações, passando por previsões de futuro, curas de doenças, chegando até a prática de maldades de todos os tipos contra os desafetos. O grande diferencial é que tudo pode ser feito no conforto do lar sem precisar deslocar-se a um terreiro ou passar pelo constrangimento de ser flagrado em alguma encruzilhada fazendo oferendas aos habitantes do além.

Dada a quantidade de opções, somos levados a crer que o comércio eletrônico na área vai muito bem e prospera. Médiuns com sites nas quatro capitais da região sudeste – mediante garantia de anonimato – informaram receber em torno de 20 a 30 emails por dia, sendo que dois a quatro se concretizam em trabalhos, cujos valores vão de 250 a mil reais em média. Para se ter uma idéia de como essa prestação de serviço está em alta, um desses médiuns, Carlos de Ogum, com site na capital fluminense, afirmou ter realizado recentemente um trabalho de magia negra cujo valor foi de sete mil reais pago à vista por meio de débito eletrônico.

Segundo esses médiuns, os serviços mais pedidos são: trazer a pessoa amada e praticar vingança contra desafetos, coincidentemente, dois trabalhos orçados por mim, a uma consultora espiritual com site em Vitória (ES). No primeiro caso, pedi que uma conhecida deixasse o atual namorado e ficasse comigo, já no segundo, quis que uma ex-chefe tivesse a vida desgraçada. Após pedir um detalhamento dos casos, Dona Sarah, como ela se identificou, explicou que ambos os trabalhos seguiriam a linha de magia negra por meio de rituais pesados e com a garantia ‘apenas verbal’ de sucesso absoluto.

Para o amor não correspondido foi sugerido um trabalho de amarração por vodu. Segundo Dona Sarah, dois bonecos seriam entrelaçados por linhas vermelhas, seguido de oferendas e orações a Exu por 12 dias consecutivos. Após os serviços, a vítima estaria presa a mim carnalmente e espiritualmente. Já a vingança seria um serviço com ritual negro com duração de sete dias e também intermediado por Exu. Ao término, a minha desafeta cairia em um poço de tristeza, depressão, insônia, agonias físicas, além de que espíritos malignos seriam despachados para infernizá-la. As empreitadas foram orçadas em 980 e 817 reais, respectivamente, incluso todo o material necessário, sendo o pagamento via boleto bancário, cartões de débito ou de crédito, parcelado em até três vezes sem juros.

Apesar do alardeado sucesso essa modalidade de comércio eletrônico está longe de ser unanimidade entre os ocultistas do mundo real. Doutor Mobuto, dono de um movimentado consultório espiritual na Praça Sete, região central de Belo Horizonte (MG), e de um terreiro na região metropolitana garante que a “macumba online” não passa de “charlatanismo”. Segundo ele por dois motivos bem simples: o primeiro pela inexistência de qualquer garantia de que o serviço será mesmo realizado e o segundo pela ausência física do contratante na hora da realização dos trabalhos.

Ele esclarece que os despachos na linha negra, os mais solicitados, são feitos – não pelos Exus – mas por intermédio dos Kiumbas, entidades malignas e marginais, habitantes do submundo espiritual. Mobuto explica que tais seres invariavelmente exigem rituais disparatados com oferendas regadas a carne crua, bebidas alcoólicas, sangue, dinheiro, sacrifício de animais e outros materiais de baixo teor vibratório. Além do que, os Kiumbas como são orgulhosos e encrenqueiros exigem a presença física do solicitante para a realização da barganha ou do pacto. Tais pontos são suficientes para invalidar o comércio eletrônico no plano espiritual acredita Mobuto.

Os argumentos de Mobuto – apesar de inegavelmente válidos – não encontram eco entre os profissionais do comércio eletrônico. Segundo o especialista e editor do site Mundo do E-commerce, Marcelo Goberto, a prestação de serviços só pode ser considerada “charlatanismo” se o prometido não foi cumprido, caso contrário não há nada de errado. Ele explica que muitas vezes alguns serviços têm mais um quê de “psicológico” do que de “feitiçaria” e assim o importante é a satisfação pessoal do consumidor.

A professora da ESPM e especialista em marketing digital e e-commerce, Sandra Turchi, pensa de forma parecida. Na opinião dela, a web apenas retrata o que as pessoas são fora dela. Portanto, como há “charlatanismo” fora da rede, obviamente há também dentro dela e é lógico que existem os profissionais sérios, atuando de maneira honesta e correta na internet, assim é injusto generalizar.

Sobre o fato da consultoria espiritual via internet ser ou não uma tendência de mercado, os especialistas têm pontos de vistas próprios. Sandra Turchi diz que o meio virtual propaga aquilo que já ocorre no meio real. Ela afirma não haver mais uma grande separação entre eles, dessa forma, a procura por esse tipo de serviço deve ser crescente no mundo real o que acaba por refletir no meio online. Ela crê que a resposta para a procura desses serviços deve ser buscada em aspectos “psicológicos” mais profundos e não em tendências mercadológicas.

Por outro lado, Marcelo Goberto acredita que o comércio eletrônico da consultoria espiritual deve ser mesmo uma tendência de mercado. Segundo ele, tudo que possa ser consumido, sejam produtos ou serviços prestados, possuem largo potencial de comercialização via internet, visto a facilidade e a comodidade apresentadas pelo canal online. Assim a busca por tais consultorias deve proliferar cada vez mais.

Entretanto os dois especialistas alertam o consumidor a adotar alguns cuidados antes da contratação desses serviços. Sandra Turchi crê que em caso de insatisfação o contratante não tem para onde recorrer. Ela acredita que os órgãos tradicionais de defesa dos consumidores não estão preparados para atuar nessa seara. Mas por outro lado, ela afirma que a web, de certa forma, tem uma lei própria: o poder de influência dos internautas em suas redes sociais e isso pode separar o joio do trigo.

Marcelo Goberto concorda com a professora e aconselha o contratante a retirar o máximo de referências sobre o prestador do serviço para evitar dor de cabeça futura, ainda mais para algo com poucas chances de mensuração, pela inexistência de um contrato de serviço no caso dos trabalhos espirituais. Sobre o ressarcimento financeiro em caso de insatisfação, ele acredita que isso só será possível caso o prestador possua alguma política bem clara nesse sentido.

A questão é que o e-commerce no país movimentou ano passado cerca de 20 bilhões de reais e a expectativa para este ano é que movimente cerca 30 bilhões, segundo a Câmara Brasileira de Comércio Eletrônico. Logo é normal que modalidades de prestação de serviços “incomuns” e por que não “bizarras” surjam a cada dia. O consumidor tem o livre arbítrio para procurar o que lhe atende e lhe satisfaz psicologicamente, mas é essencial cercar-se antes de todos os cuidados para não ser lesado e arrepender-se depois.

PUBLICADO POR

Marcelo Rebelo

Jornalista, relações públicas e pós-graduado em E-commerce. Prestou consultoria em comunicação social e virtual para o Senado Federal, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Programa Fome Zero, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Secretaria Geral da Presidência da República, Unesco e PNUD.

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