Assange: da sacada londrina para a lata de lixo da história

A declaração do fundador do Wikileaks, Julian Assange, na sacada da embaixada equatoriana em Londres, no dia (18/08), foi um espetáculo lamentável e o ponto final em uma farsa. Ao invés do paladino da liberdade de expressão, perseguido pelos EUA por expor a verdade, quem estava ali era um agressor sexual de mulheres, procurado pela Justiça Sueca, criando um factoide para mascarar a realidade dos fatos.

Julian Assange direto da sacada da embaixada do equador em Londres.

Durante dez minutos, Assange vociferou uma sucessão de absurdos, agradeceu a coragem do presidente Rafael Corrêa por conceder-lhe asilo; pediu que os EUA cessem “à caça às bruxas” ao seu Wikileaks e apelou pela liberdade do recruta Bradley Mannning e da banda punk russa Pussy Riot. Pura falácia! Na verdade, Assange, de forma ladina, criou com muita habilidade uma série de factoides para encobrir a única questão real nisso tudo: o medo dele em encarar os tribunais suecos pela acusação de um crime abjeto e repugnante, a agressão sexual contra duas mulheres.

Sua alegação de que, caso venha a ser extraditado para Suécia, a mesma poderia extraditá-lo para os Estados Unidos, onde ele poderia ser condenado à pena de morte é uma teoria conspiratória juvenil. Nada mais do que uma cortina de fumaça para esconder suas acusações de crimes sexuais. Qualquer estudante de direito internacional sabe que o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem não permite processos de extradição para países onde existe a possibilidade da pena capital ser aplicada.

Em relação à perseguição impetrada pelos Estados Unidos ao Wikileaks trata-se de outra invencionice. A postura de Assange e de seu site há tempos vem sendo intensamente questionada, sobretudo por mantê-lo com documentos obtidos de modo pouco transparente, publicá-los sem nenhuma edição e pôr em risco a identidade de suas fontes. O recruta Bradley Manning que o diga, pois certamente passará o resto da vida na cadeia por enviar ao Wikileaks milhares de arquivos de inteligência dos EUA sobre a guerra do Afeganistão e do Iraque. O site foi também muito criticado em 2011 por divulgar nomes de agentes secretos da CIA e expô-los a riscos de morte.

Julian Assange considera a si mesmo um outsider que publica fatos que precisam ir a público. Durante a 67ª Assembleia Geral da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP), realizada em Lima, em (10/2011), Assange assegurou durante videoconferência que é um ativista que luta pelo direito da imprensa de publicar informações. Segundo ele o WikiLeaks é uma organização de “imprensa livre” e que luta pelo direito de publicar e de informar e, nesse sentido, é uma organização ativista, porque luta pelos direitos da imprensa.

Na verdade o WikiLeaks nada mais é do que um banco de dados com milhares de documentos postados sem apuração, edição e enviados por descontentes que usam o anonimato para denúncias. O pior é que todo esse conteúdo informacional é conseguido de maneira ilegal por meio de furtos. O editor adjunto do The Washington Post, Jackson Diehl, presente também à SIP, enfatizou que Assange não é um jornalista e tampouco o WikiLeaks é uma organização jornalística. Segundo Diehl, Assange se autointitula jornalista por razões legais, mas é um intermediário que prestou informações valiosas.

Muitos analistas acreditam que o intenso marketing viral negativo fez a opinião pública virar-se contra o WikiLeaks e isto causou o afastamento institucional representado pelas empresas de pagamento online e pelos grandes jornais como “The Guardian”, “New York Times” e “El País”, que davam suporte à ferramenta analisando, filtrando e publicando toda a documentação disponível. Tais veículos descobriram que não precisavam do Wikileaks para ter acesso a informações sigilosas e muitos como a Folha de São Paulo e seu Folhaleaks passaram a oferecer os mesmos serviços. Isso sim é que tem levado o site à bancarrota e não uma suposta perseguição dos EUA.

Voltando à sacada da embaixada, Assange foi de um cinismo impressionante ao lembrar o caso das meninas da Pussy Riot condenadas a dois anos de prisão por criticar o governo do presidente soviético Vladimir Putin. A alusão foi ridicularizada pelos opositores russos, pois Assange tinha um programa de entrevistas na rede “Russia Today” controlada por Putin. Seu extinto programa de entrevistas o “The World Tomorrow” foi um caso à parte, que serviu para mostrar a desconexão e o desprezo de Assange para com os preceitos democáticos e de liberdade de expressão.

Segundo Assange, seu talk show foi um espaço para pessoas que não tiveram chance de ter voz na grande mídia. Dentre as personalidades entrevistadas destacaram-se Hassan Nasrallah, o chefe do movimento xiita libanês Hezbollah, um terrorista responsável direto pela morte de civis, incluindo mulheres e crianças e o “corajoso” presidente equatoriano Rafael Corrêa, que hoje trava uma batalha ferrenha para acabar com a democracia e com a liberdade de imprensa em seu país.

O pior de tudo isso é que um escroque como Julian Assange ainda consegue enganar a muitos formadores de opinião, posando como um cruzado da liberdade de expressão. Hoje, ele é defendido com unhas e dentes por pessoas do calibre do terrorista Hassan Nasrallah, e dos presidentes Vladimir Putin, Mahmoud Ahmadinejad, Hugo Chaves, Rafael Corrêa, Evo Morales e Cristina Kirchner. Todos unidos por um único ideal, combater aquilo que o fundador do Wikileaks diz mais prezar: a liberdade de expressão e, principalmente, a de imprensa.

Já os países e as pessoas criticados por Assange e por seus defensores como a Suécia, a Inglaterra e os Estados Unidos são locais onde impera a democracia civilizada, com uma imprensa livre, onde a investigação judicial é tratada com seriedade, os direitos humanos são respeitados e as garantias de um julgamento justo idem.

Não sabemos como terminará o imbróglio sobre a extradição de Assange, mas uma coisa é certa da sacada da embaixada equatoriana em Londres, ele já tem um lugar garantido na lata de lixo da história.

PUBLICADO POR

Marcelo Rebelo

Jornalista, relações públicas e pós-graduado em E-commerce. Prestou consultoria em comunicação social e virtual para o Senado Federal, Banco Interamericano de Desenvolvimento, Programa Fome Zero, Ministério do Desenvolvimento Social e Combate a Fome, Secretaria Geral da Presidência da República, Unesco e PNUD.

Novidades e atualizações, direto em seu e-mail