As doenças, síndromes e transtornos do mundo moderno e digital

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Se você acha que intolerância a glúten é uma “doença da moda” ou “doença moderninha”, é porque você provavelmente nunca ouviu falar do “membro digital fantasma” ou de “fear of missing out (fomo)”. As mudanças trazem consigo consequências e a revolução digital que passamos está trazendo novas doenças, síndromes, transtornos e preocupações.

O uso excessivo de algumas ferramentas pode trazer consequência terríveis, outras apenas engraçadas. Os sintomas podem ser diversos e vão de apenas características até problemas graves relacionados a saúde. Para alguns há tratamentos, para outros não.

É importante classificar tais mudanças no comportamento, mas sempre estar atento que a grande maioria destas novas doenças está relacionado a causas mais graves. Fique atento, pois algumas das curiosidades aqui são na verdade sintomas de problemas relacionados a ansiedade e depressão, por exemplo.

Membro Digital Fantasma

Também ligado a um transtorno psicológico, o membro digital fantasma é muito semelhante a uma condição psicológica oficialmente reconhecida chamada “membro fantasma”, onde pessoas que tenham qualquer parte de seu corpo removida, relatam sentir ou presenciar esse membro, sem mesmo ter ele.

No caso do membro digital fantasma, estamos falando das ferramentas que nos acompanham no dia-a-dia, como o smartphone. Alguma vez você já sentiu o seu bolso tremer, como se tivesse recebendo uma notificação, colocou a mão no bolso e percebeu que nada ali havia? Para só daí perceber que o celular estava em cima da mesa ou em sua mão. Você não está ficando maluco, é a Síndrome do Membro Digital Fantasma.

Essa sensação é semelhante a várias outras, como aquela de quando temos a impressão de ouvir o nosso nome na rua, mas ninguém nos chamou.

O membro digital fantasma ocorre de diferentes formas, mas sempre dando essa impressão de ter ouvido o celular chamar, vibrar ou ligar a tela quando, na verdade, nada disso aconteceu.

“Provavelmente sempre sentimos um leve formigamento no nosso bolso. Há algumas décadas nós teríamos apenas assumido que isso era uma leve coceira e teríamos coçado” Dr. Larry Rosen, autor do livro iDisorder

Nomophobia – Medo de ficar sem celular

Uma abreviação de no mobile phone (que pode ser traduzido como “sem telefone celular”), é uma fobia bem comum. Se você está saindo de casa e no meio do caminho percebe que deixou o smartphone para trás, o que você faz? Da meia volta ou consegue ficar algumas horas sem o smartphone?

Eu confesso que, dependendo da situação, voltaria para casa… mesmo que isso fosse me atrasar para o meu compromisso.

Lembro de uma vez ter visto um aplicativo que queria facilitar o acesso ao smartphone através do computador para aquelas pessoas que esqueciam ele em casa. A ideia não deu certo, apesar de ser simples e muito boa. Sabe por que? As pessoas que realmente se importam não esquecem o celular em casa e, quando esquecem, voltam para pegar. Se a pessoa esquece e não se importa, não vai nem fazer questão de usar o aplicativo para ver como o seu celular está.

Naúsea Digital

Tradução do termo cybersickness que surgiu no começo dos anos 1990 quando se iniciavam testes de aplicação de realidade virtual e muitas pessoas sentiam sintomas de tonturas e náuseas por conta da dificuldade de assimilar o movimento no ambiente virtual enquanto seus corpos estavam parados.

Essa dificuldade de nossos cérebros se habituarem a determinadas coisas que não são naturais podem causar estes distúrbios. Um outro exemplo é o “Efeito de Paralaxe”, que ganhou muita popularidade nos últimos anos dentro da web, principalmente ao ser utilizado pelo iOS da Apple. O efeito, como explicado no blog Des1gnOn, se da quando dois objetos 2D são movimentados em velocidades diferentes, dando uma falsa sensação de profundidade a imagem.

Não muito tempo atrás, com o lançamento do iOS 7 (sistema operacional dos iPads e iPhones), surgiram diversas reclamações de pessoas que sentiam enjoadas e tontas ao utilizarem o novo sistema da Apple por conta do uso de transições, movimentações e do efeito parallax. Após o incidente, na versão 7.0.3 mais precisamente, a empresa criou uma funcionalidade que desativa todas as decorações baseadas em movimentação.

Comportamento compulsivo possibilitado pela internet

Quem nunca ouviu uma mãe falando de um adolescente que “passa o dia todo no computador, está viciado nessa internet”? Talvez esse vicio seja real. Mas calma, não quer dizer que você tem esse transtorno só por usar bastante a internet. Afinal, hoje em dia, quem não passa o dia todo ‘conectado’?

Também chamado de Transtorno de Dependência da Internet – o que é polêmico, pois há um estudo muito mais complexo por trás – é uma compulsão de mídia digital, afeta milhões de pessoas e está relacionada diretamente ao uso excessivo de meios digitais. É importante lembrar, dentro desse contexto, que apenas o uso excessivo de internet não caracteriza o transtorno, mas o que caracteriza então? O uso não saudável.

A própria definição de saudável pode ser complicada. Para este caso, o mais fácil é se preocupar o quanto o uso excessivo está causando problemas para a pessoa. Se você usa muito a internet, mas isso não afeta a sua saúde física, mental ou social, não é considerado um transtorno. Se, por outro lado, usar muito a internet está fazendo você não querer sair de casa ou se alimentar mal, pode ser que você tenha um transtorno.

Existe bastante literatura que estuda esse comportamento compulsivo, como o livro “Dependência de Internet“, que é um profundo estudo sobre o problema e inclusive esclarecer melhor a partir de qual momento estamos lidando com um comportamento compulsivo.

Greenfield descobriu que aproximadamente 6% das pessoas que usam a internet parecem fazê -lo compulsivamente, muitas vezes com consequências
negativas sérias. Entretanto, ainda há muitas perguntas a serem respondidas antes de chegarmos a uma nosologia apropriada para rotularmos os efeitos do abuso de internet. David Greenfield

É importante salientar que esses comportamentos geralmente estão associados com problemas mais graves, como problemas de ansiedade e autoestima.

Vicio relacionado a jogos eletrônicos e jogos online

Problemas relacionados a jogatina online ou em meios eletrônicos na verdade se encaixa como uma sub-categoria do Jogo Patológico, também chamada de ludomania, que é a doença relacionado ao ato de jogar e apostar. Então o meio digital desta doença é apenas um novo meio onde essa doença pode se propagar.

Hoje, a comunidade científica afirma categoricamente que o jogo patológico não é um vício, não é um defeito moral, mas é considerado uma doença – modelo médico. […] Enfim, o Jogo Patológico é um transtorno da saúde mental em que um indivíduo tem psicologicamente uma preocupação incontrolável com o desejo de jogar, isso acaba resultando em danos profissionais, familiares, e nas relações sociais.Eliana Ferrarez

O problema portanto não é do jogo em si, mas um comportamento doentio do sujeito. Este problema é cada vez mais comum em jovens, possivelmente por terem uma maior facilidade com os meios digitais e nem sempre estarem muito cientes dos perigos por trás deste comportamento.

Confira aqui a matéria no site do Fantástico

Em alguns países, como na Coréia do Sul, existe desde 2011 a “Lei Cinderela”, uma legislação que proíbe jovens menores de 16 anos a se conectarem a jogos entre 0h e 6h.

Dados de um estudo oficial realizado em 2010 mostram que 8% da população de até 39 anos têm sintomas de vício em internet. A taxa sobe para 14% nas crianças com idades entre 9 e 12 anos.O Globo

Nick Yee, autor do livro “The Proteus Paradox” (sem tradução para português), que pode ser comprado na Amazon, pesquisou com usuários de MMORPGs (Massive Multiplayer Online Role Playing Game, jogo de interpretação de personagens online e em massa para múltiplos jogadores) através do seu projeto Daedalous Project para entender um pouco melhor as suas motivações e em seu livro traz uma ideia melhor de quem são qual a relação dos jogadores com esse ambiente digital.

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O Papo de Homem, um dos meus blogs preferidos da internet brasileira, tem uma coluna onde ajuda pessoas com dúvidas em geral. Algum tempo atrás uma me chamou bastante atenção, pois surgiu a publicação “O vício em games estragou a minha vida“, onde um leitor do blog relato os problemas que tem com os jogos online e pede ajuda. Vale a leitura.

Pedro Filipe Hubert, português que trata dependentes de jogos eletrônicos offline e online em seu consultório, falou em uma entrevista ao Publico que o vicio em meios digitais online pode ser ligeiramente mais forte. Existem inclusive centros de tratamento na China, como documentado aqui, que tratam jovens viciados em jogos online (principalmente os MMORPGs).

E se a idade média do jogador patológico online é de 30 anos e a do offline é de 40, isso é um dos factores que podem apontar para que o online seja mais aditivo. É certo que os primeiros começam mais cedo. Mas se chegam aos 30 e já estão na fase da dependência, quando os outros só chegam aos 40, alguma conclusão se pode tirar daí.Pedro Filipe Hubert

Mas não pense no jogo patológico digital apenas como sendo um problema relacionado aos MMORPGs, pois há uma crescente preocupação com jogos de smartphone, como o já famoso Candy Crush. O jogo é conhecido por seu alto nível de vício, e isso já foi estudado, como reportado pelo The Guardian, onde mostraram que vários elementos no jogo o ajudam a se tornar uma adição para os seus usuários. O Pedro Burgos, no seu site Oene, fez uma ótima análise sobre a profundidade no vicio em Candy Crush, questionando inclusive a teoria de que poderíamos passar a considerar jogos assim como um risco a saúde pública.

Fear of Missing Out (FOMO) – Medo de Estar por Fora

Não exatamente uma doença, mas uma condição psicológica ligada à ansiedade. O “medo de estar por fora” é uma recente constatação de que alguns de nós vivemos uma crise de ansiedade pelo excesso de informação. Acredito que todos usuários de redes sociais acabam sofrendo desta condição em algum momento, mas com intensidades diferentes.

O excesso de informações, publicações e notificações deixa o portador desta condição ansioso, ele quer saber de tudo, participar de tudo e nem sempre consegue conviver muito bem com uma notificação não lida no seu smartphone.

O canal School of Life, que já recomendamos várias vezes aqui, fez um excelente vídeo explicando essa característica da vida moderna.

Hipocondria fortalecida pelo meio digital

Referenciada por alguns como a “cibercondria”, é mais um dos ~transtornos~ relacionados aos meios digitas que, na verdade, são apenas uma sub-categoria de um problema ainda mais sério. Neste caso a hipocondria é a doença relacionada a crença do sujeito de estar doente ou precisar de remédios que ele não precisa, na verdade.

Portanto estamos lidando com pessoas que usam os meios digitais para fortalecer a sua crença de que estão doentes ou precisam de algum medicamente. Para quem usa o Google para tudo (me incluo nessa), sabe que nunca devemos digitar qualquer sintoma e apertar em “Pesquisar”, pois a consequência será em 9 de 10 vezes… câncer. Essa é uma antiga piada da internet, pois as vezes realmente nos sentimos como se qualquer pesquisa no Google resultasse em você achar que tem algum tipo de câncer ou doença mortal.

Que atire a primeira pedra quem nunca procurou por um sintoma no Google.

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Menção Honrosa: Editiovultaphobic

Segundo alguns poucos sites da internet, o que me leva a crer que não é algo cientificamente aceito, a Editiovultafobia é a união das palavras em latim para “cara” e “livro” (sim, eu sei que você entendeu a referência a Face-Book) e seria o medo de ter toda a sua vida exposta a estranhos desconhecidos, algo que eu acredito que qualquer um de nós deveria ter.

Como ressaltado no começo deste post, praticamente todas essas doenças são apenas uma nova forma de manifestação de doenças antigas e, muitas vezes, são apenas leves sintomas de problemas maiores. Então, se você se identificar com qualquer uma delas, recomendo procurar ajuda profissional.

Conhece mais alguma doença, síndrome ou transtorno relacionado aos meios digitais? Deixe o seu comentário!

Principais Referências:

Conheça Doenças Provocadas pela Internet – Pragmatismo Político
Dependência de Internet
Jogo Patológico: Características, Fases e Tratamento

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Publicado por

Dennis Altermann

Fundador-Editor aqui no blog Midiatismo, trabalhando com marketing digital na DuPont Pioneer do Brasil. Entusiasta e estudioso nas áreas de comunicação, cultura, comportamento e tecnologias digitais.